quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

"O momento da chama"

Tenho tentado perseguir as memórias das últimas etapas ate á exaustão e não consigo fazer delas palavras reais. São três os posts que tenho por escrever. São muitas as viagens, as paragens, as noites mal dormidas. São amizades que valiam a pena serem contadas, um pôr-do-sol que me doeu, um barco, a claridade da manhã de olhos preguiçosos. Uma estação de serviço com o melhor café do mundo. Animais, parques naturais, águas que correm sem fim. Olhos que brilham a luz de uma cidade á noite. Musica de tambores…amores. Ruas cheias de uma gente que, não sendo a minha, não me é estranha.
É muita a vontade de deixar escrito o verdadeiro momento vivido e essa vontade é um peso desde que resolvi reler os meus posts antigos.
Reli-os um por um, com cuidado, deixando reviver o que por lá passei.
Primeiro, a sensação de não ter sido eu a escrever. Questionar-me se alguma vez teria tido tal ideia ou raciocínio. Depois, perceber que realmente não fui eu quem escreveu tudo aquilo. Se tivesse sido eu, certamente não me seria difícil relatar as etapas que me faltam e dar um final feliz a este blog.
Foi então, um erro crasso não ter descrito as ultimas paragens no seu momento próprio. Não ter projectado para um papel uma ideia, uma imagem, uma conversa, no momento em que se deram.
O erro foi não ter escrito no “momento da chama”. Esse a que dei nome por ser tão real, tão intenso e decisivo. Esse que fez de mim outra pessoa que não eu, com um potencial que não possuo em condições normais.
O “Momento da chama” é um espaço de tempo em que as emoções estão tão presentes que se entrelaçam no corpo e qualquer forma de exteriorização é arte, carregada de verdade e vida. É a mais fiel descrição. No meu caso, a mais honesta das escritas.
Já em Lisboa tento recordar-me das maravilhosas quebras de gelo do glaciar mais belo do planeta. Mergulhar novamente nas águas que caem assustadoramente do rio Iguaçu. Lembrar as noites e dias das ruas de Buenos Aires. O Rio.
Consigo e gosto mas sei que muito se perdeu…
Realizei por fim o património que guardo nas páginas deste blog. Irrecuperáveis testemunhos de uma viagem irrepetível que mesmo assim tem pouco por culpa do comodismo, da preguiça e da falta de noção do tempo que dura o “momento da chama”. Esse que me transcende e me devolve o mundo inteiro, gozando com a lei do tempo, fingindo que esse não existe, possibilitando-nos reviver a cada instante todos os instantes de felicidade.

segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

O mar Patagónio

Muito tínhamos especulado sobre aquela aventura. Marcámo-la com dois meses de antecedência e toda a viajem teve de ter coordenadas fixas por causa dessa data...Tudo girava em torno desse dia em que embarcaríamos no grande Navimag, que desce o Sul Chileno, por entre as, mais de mil, ilhas da costa patagónia.
A subida ao navio foi uma emoção. As filas compenetradas, numa atitude tão solene que perecia que íamos embarcar para sempre.

A mim, os barcos sempre fascinaram. Uma infância feliz traz memorias agarradas a objectos simples, tal como as crianças os vêem. Á memoria dos meus poucos anos, amarrei uma ilha onde andava descalça, sozinha e onde tinha esconderijos que mais ninguém sonhava. Amarrei uma praia de pescadores, já na altura pequenina, que abraçava barcos e rochedos num uníssono perfeito. Barcos grandes e pequenos, pintados e abandonados, tufos de rede por desatar, restos e cheiros do que terá sido boa faina... Uma barriga familiar, que transmitia segurança, que segurava uma cana de pesca e um balde esperançoso. Os meus irmãos, zelosos por não falhar na lição, lá pescavam o jantar e na volta, o que mais me incomodava era deixar o nosso barquinho para traz, ali no meio de tantos outros muito maiores que ele...
Quis encontrar-me com as minhas memorias. Quis dar-lhes vida, tempo e muito espaço. Quis sonhar aquilo que fui um dia...
Foram quatro dias de uma viajem ao mais sul de mim em que me abandonei á felicidade de coincidir a beleza das minhas recordações com a mais bela, inesperada paisagem.
E lá ia o nosso barquinho, que ganhou diminutivo ante a imensidão do que via e do frio que o banhava.
As mais de mil ilhas chilenas criam passeios e caminhos no mar que o barco contorna, havendo passagens tão estreitas que só de dia se podem cruzar. São cogumelos flutuantes no primeiro plano, o nosso barco rasgando o calmo correr da maré e rodeando tudo isto, uma cordilheira andina, constante, ás vezes branca, dando asas á imaginação das tardes onde, sozinha, me deixei navegar.
Os dias foram correndo por entre conversas a meio e cervejinhas na poupa, alguns documentários sobre a fauna e flora da zona, tribos extintos e planos de navegação para o dia seguinte, musica, livros de ler e de escrever...

Nas noites geladas, era difícil ficar muito tempo ao ar livre mas o gozo do céu estrelado e aquele medo miudinho de estar a navegar no meio do breu, atraía-me aos corrimões, ás escadarias de ferro e ao vento húmido que deixava tudo peganhento. Lembrava-me as noites quentes do barco do Guadiana. Aquelas em que dormia ao relento pois não havia espaço para todos. Na altura eu dava graças por não haver esse espaço e fazia um esforço desumano para não adormecer e não perder aquela maravilhosa sensação de mar à noite.
A voz monocórdica do altifalante anunciou uma aproximação ao Pio XI, Em comprimento, o maior glaciar da patagónia ao nível do mar.

Uma imensidão de gelo muito azul de onde vimos desprenderem-se blocos pequenos mas que eram suficientes para um espectáculo impressionante.
Por entre as ondas do meu isolamento fui me cruzando com outras almas solitárias que me fizeram bem e companhia. O Billi era guia de um grupo de senhoras experientes e marcou-me pela sua simplicidade e vida tão diferentes. Quase naïve, parecia um daqueles índios de uma beleza inigualável mas que são tão simples que não dão conta da sua beleza e encanto. Peruano que passa temporadas na selva com curandeiros, espiritual e com um mundo no olhos que ninguém consegue penetrar. Gostámos de estar um com o outro e passámos algum tempo trocando as nossas historias, musicas e silêncios.
O suíço que se escondia nas cabines a tocar saxofone e que nunca deu por mim, do outro lado do corredor.


O velhote alemão que especulava sobre o Sexta-Feira e os pinguins amestrados do Robinson Crusoe. Cria que numa daquelas minúsculas ilhas, os aventureiros das historias de encantar tinham poiso de ferias. Para isso pinguins e outras criaturas geladas, trabalhavam arduamente para manter a qualidade de vida do herói aposentado. Rimos de tal maneira que não foram poucos os que se acercaram do corrimão para tentar perceber para onde apontávamos e do que tanto riamos.

A chegada a Puerto Natales foi animada pelas despedidas e simpatia da tripulação.
Procurámos hostal e logo comecei a planear o famoso treking nas Torres del Paine. O parque natural mais famoso do Chile e até da América do sul, onde milhares de desportistas e outros com vontade, se aventuram no percurso que leva ás torres, a glaciares, florestas húmidas e muitas escaladas.
Voltei a fechar a porta da memoria e preparei-me para mais uma aventura que será memoria um dia...

terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

O Chile que espera a Patagónia


O salar de Uyuni foi o final triunfante do espectáculo preparado pela Bolívia. O nosso Jeep ficou na fronteira e lá apanhámos mais um bus, directo a São Pedro de Atacama.
Uma cidadezinha no meio do deserto, que se gaba do titulo de oásis e que por isso, é muito turística e muito cara. Todos os hotéis e restaurantes são feitos de tijolo de barro e exibem rústicas indicações em madeira pintada e quadros de ardósia, competindo a originalidade dos menus.
A zona do norte chileno é vulcânica e muito seca, dando origem a desertos lunáticos de cores bolivianas, formações rochosas incríveis, lagoas termais e gigantes dunas de areia com vista para um horizonte pré-histórico. No meio de tamanha aridez, sobrevive esta simulação de naturalidade, esta cidadezinha criada para fazer dos turistas aventureiros, em situação de escassez, isolados, sem nada nem agua... Ainda assim, não há nada que lá não haja e podem-se passar belos dias de papas e descanso.


Num desses domingos pacatos de aldeia longe do mar, chegava eu de ir ver a Deus quando encontro a Rita na esplanada da praça, em amena cavaqueira com dois castiços de cabelo esquisito e ar descontraído. Alinhámos todos no que se ia pedindo da cozinha e deixámos que a tarde nos fosse guiando pelas viagens de cada mundo e de cada um. Enzo é chefe de cozinha mas já foi de tudo um pouco. A sua verdadeira profissão é viajante e exerce há mais de 6 anos, fazendo uns biscates por fora, não vá a fome apertar. Cozinheiro, artesão, actor de marionetas, empregado de diferentes tipos de mesa, guia turístico e eu sei lá... Um autentico “faz tudo” que nos fez as delicias naquela pacata tarde de aldeia longe do mar...

No dia seguinte, empenhados nas bicicletas, fomos os três desbravar o “Vale de la Muerte”, deserto de dunas a pique em pranchas de sand board. Do alto contemplam-se os 28 vulcões que fazem fronteira com a Bolívia e recuperam-se as forças que perdemos na subida. Deixamo-nos cair, como penas, sem querer que aquela sensação acabe jamais, e no fim, depois de rebolar e aterrar de cabeça, as gargalhadas entre todos são a melhor parte...
O dia acabou no restaurante de Enzo, a provar petiscos do Chefe e a partilhar, entusiasmados, as descidas que todos viram.

A ansiedade era daquelas que nos deixa com efervescência nas vísceras. Já não me continha nas previsões e a minha imaginação ultrapassava, não poucas vezes, o limite do possível neste mundo em que todos nos achamos. A patagónia chilena estava a chegar e ainda tínhamos 2 dias de autocarros e uma paragem em Bariloche, na Argentina.
Bariloche é a cidade do ski e dos lagos. Faz-me lembrar aquilo que imagino do norte da Europa. As montanhas nevadas, as casas de telhados pontiagudos, os lagos e os cisnes, as fadas e os bailes em florestas escondidas...
Está bem... Talvez sem fadas.
Bicicletas e muita força de vontade fizeram-nos conhecer mais lagos e mais caminhos camperos, onde se respirou o ar puro da natureza e do exercício físico.
Comi do famoso assado, percorri as entranhas do comercio, descobri Pessoa numa livraria-café onde passei metade da minha estadia e onde me lancei, com a maior das motivações, em Gabriel Garcia Marques em castelhano... Ainda não o acabei mas encontrei, a tarde e a más horas, do melhor que a América tem.
Mais umas horas de viagem, mais umas fronteiras sem escapar aos minuciosos tramites chilenos e, Puerto Montt, recebeu-nos finalmente.
Uma cidade de porto onde não se passa nada mais que chegada e partida de barcos. A cidade cheira a mar e todos os que passam pela rua parecem marinheiros. As casas são em madeira de cores que outrora foram vivas e os passeios mal acabados, estão sujos de mar.
Navimag zarpou e o adeus àquele porto foi (diria eu) para sempre.

Nessa tarde, estendi-me num dos bancos corridos do convés e assisti ao encanto do pôr-do-sol visto do mar, ao suave cortar das ondas salpicando os corrimões, às diferentes expressões de entusiasmo de quem começava, como eu, uma aventura única no mais sul que o mundo tem.

segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Bolívia

Encontrei La Paz linda de morrer!
Pode-se dizer que é uma cidade feia mas envolve-nos num encanto, num movimento, numa cor, nas ruas a pique, nos autocarros a pique, nas praças, nas escadarias, num autentico toldo de fios eléctricos que tapa o sol de vez em quando, de mercados de rua, gritaria, muito movimento, um transito impossível que quase me matou e um cheiro daquilo que poderão ter sido as cidades sul americanas de outros séculos... Uma confusão que adorei!
Um céu azul petróleo anunciou uma trovoada tremenda e realçou, ainda mais, as cores dos transportes públicos, das fachadas das tabernas, das saias das senhoras, dos sorrisos dos turistas, das bolas das crianças...
A cidade esta atafulhada de bancas e pregões, organizados por actividade. Fez-me lembrar a nossa Baixa de ferreiros, a Baixa do ouro e da prata, a Baixa de outros tempos...
Há a rua onde só se vendem bananas, outra de produtos de limpeza e uma só de electrodomésticos. Parece organizado, não parece?
Pois, mas não é!


A Bolívia é um dos países mais pobres da América e as diferenças evidenciam-se. Os trajes típicos sobrevivem e os famosos chapéus de coco á inglesa ainda poisam no cocuruto das tranças ate ao rabo, atadas nas pontas. O comercio é muito rudimentar, confuso e barulhento. Os autocarros têm overbooking em todas as viagens e é possível andar mais de um km sem encontrar um café.
Mas é precisamente esse atraso que torna a Bolívia tão viva, tão cheia, inesquecível...
Do miradouro vislumbram-se montes nevados que, de longe, vigiam discretamente a cidade e tornam-na ainda mais formosa.
Foram dois dias e duas noites preenchidas de passeios, almoçaradas e ckoctails nos bares mais badalados!

Potosí: Cidade de minas e mineiros, é conhecida por ser a mais alta do mundo. A Rita, o Frederico e eu, vestidos a rigor, começámos por parar no mercados a comprar folha de coca e cigarros, de regalo aos valentes trabalhadores.
O nosso guia era um antigo mineiro e foi a nossa sorte...Esse dia era feriado e não havia viva alma nas minas, ou seja, fumámos e mascámos nós...
Lá dentro, no meio de entranhas escuras e assustadoras, um santuário onde uma estátua de diabo está refastelada, á espera de cigarros, coca e álcool potável. Esta ultima é nada mais nada menos que álcool de 96º que os mineiros bebem como se tivessem numa sexta feira de fim-de-semana comprido...
Nesse dia partimos para Uyuni, com um ouverbookingzinho habitual, e alguma peixeirada na estação... Corri para um lugar qualquer e assegurei aquilo que muitos não tiveram... ainda ouve gritaria do condutor que se recusava fazer 8 horas de viajem com 10 pessoas, de pé no corredor. Acabaram por sair duas pessoas e a viagem continuou, num aperto terrível...
Paragem seguinte Deserto de Uyuni.
Preparo-me para descrever uma das paisagens mais espectaculares que vi em toda a viagem, em toda a minha vida...
Nem sei se me apetece, sabem?...
A irritação de já não ter vocabulário; de 80% das fotografias terem ficado desfocadas, de o tempo não parar e de já ter muitas outras coisas para contar, deixa-me em estado de choque á frente do computador, paralisada, quase que choro!
Tenho uns minutos para me situar e olhar para o ridículo que pode parecer este problema aos olhos dos outros. Finjo que também é ridículo para mim e começo finalmente...

Foram três dias num jeep com Frederico (Italiano) e quatro Checos marados, que davam valor ao Rum desde as 9 da manhã.
Foram três dias sem parar, sem tomar banho, sem realizar a verdadeira dimensão da beleza que percorríamos.
Foram três dias de uma contemplação surpreendida a cada km. Sim, cada km era diferente e nenhum de nós estava à espera daquilo.
O primeiro dia ficou marcado por horas em cima de uma alcatifa branca, a perder de vista em todas as direcções.
Sal! Puro sal! Compacto, muito, branco imaculado e saboroso. Com o sol vai secando e forma desenhos que o tornam ainda mais espectacular.

A ilha de cactos gigantes no meio da imensidão salgada, permitiu-nos subir para ver do alto aquele espectáculo sem cor, formado por um mar que ocupou aquele lugar há milhares de anos atrás.
No fundo desse mar germinavam mais de 28 vulcões, que na sua fúria criaram uma paisagem quase lua, montanhas ás riscas cor de laranja, encarnadas e verdes; lagoas fumegantes, saturadas de minerais vulcânicos que resultam em cores, a que ainda não deram nome, geysers que ao brilho das 5 da manha vivem cheios de uma mística, típica dos acontecimentos que só se podem assistir muito cedo, rochas de formas caprichosas espalhadas pelos doze mil quilómetros quadrados.

A flora tem quase séculos, é pouca e na maioria são tufos de pelo, aos molhinhos, mal semeados...
Na fauna, a grande atracção são as diferentes espécies de flamingos, sobreviventes ao enxofre e a outros minerais altamente tóxicos que colorem as águas e as tornam de outros mundos...
Dormimos num hotel feito totalmente de sal e molhámos os pés em termas naturais que emanavam os seus 30º, no meio do deserto, no meio do frio gelado...

A natureza mostrou-se tão inesperada que quase não acreditei no que vi. Foram dias em que não consegui desprender o sorriso da janela fosca e poeirenta. Dias feitos de rocha “Dailiana” e pântanos, de vulcões ainda fumegantes reflectidos em lagos de praia de sal, flamingos alados, horizontes que nunca chegam, amizades que ficaram...
Mário foi todo o caminho a conduzir ao som de uma cassete boliviana que deixou o Fred com os nervos em franja! Tentou comprá-la, roubá-la e até dar-ma de presente. Fez de tudo mas no fim, enquanto nos via partir para São Pedro de Atacama, voltou sozinho para Uyuni ao som daquela lambada traduzida e de muitos gritos esganiçados de mulher sul-americana.
Hoje mandei-lhe um e-mail para saber como está a sua sensibilidade auditiva...

quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

CHAMEM-ME.......TIA CARMO!!!!!!!!!!!!!!!!!

Obrigada.

sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

Israel no Mundo

A quantidade de Israelitas a viajar pelo mundo é algo que desconhecia. São tantos que chegam a ter hostais só para eles, indicados em hebreu e preços muito especiais.
Encontram-se uns aos outros pelo mundo fora como se estivessem no bairro alto e o ambiente que conseguem entre eles é contagiante.
Foi em La Paz que nos juntámos a um grupo de oito Israelitas que me despertaram para uma cultura que desconhecia por completo mas onde me senti próxima da referencia que tenho de pessoas da minha idade. Talvez por isso tenha sido tão óbvia a empatia.
São jovens que vivem num país difícil, de tensões e por vezes conflitos, que têm de estar preparados para o defender a qualquer momento.
Todos os rapazes e raparigas são obrigados a cumprir três anos de tropa, só podendo pensar em estudar depois de dever cumprido.
Liran esteve nos fuzileiros; Asaf nas forças especiais; Sharon na força aérea e por aí adiante...
Asaf falava-me de historias passadas, sofridas, amigos que perdeu, da fé na defesa do seu país.
Têm 23 anos mas são homens e mulheres com experiências de grandes heróis, com vincadas noções de honra, fidelidade e respeito a alguém superior.
Pessoas corajosas que falam com naturalidade da sua condição, sabendo que vivem num país diferente mas não se queixando nem perdendo a vontade de se divertirem, gozarem a vida e construírem um futuro tão feliz como o de qualquer outro.
Este facto explica em grande parte o numero de israelitas pelo mundo, a recuperar forças, a desanuviar depois de anos militares, a conhecerem destinos tão diferentes daquele em que vivem.
São jovens boémios, que gostam de fumar o seu cigarro, tomar umas copas e de sair até tarde.
Ao mesmo tempo, têm no sangue milénios de historia, que os formou empenhados numa tradição Judia de preceitos rígidos. Não são Judeus por opção religiosa mas sim de sangue. Uma vez Judeu, Judeu para sempre e se querem praticar a religião ou não, isso já passa por uma escolha pessoal que nem todos tomam. Apesar disso não vi nenhum comer porco, a misturar carne com leite ou a aceitar os caracóis que lhes ofereci. Alguns praticam as três orações diárias e não pensam na hipótese de se casarem, se não com uma judia.

Esses rituais, que por vezes podem parecer exagerados, a mim, puseram-me em causa e à forma como me posiciono na minha Religião; Que liberdade dou à minha, limitada, capacidade de julgamento; Como vou correspondendo ou não àquilo que me é pedido.
Aceitar certas imposições sem as entender, pode revelar a humilde capacidade de assumir que o senso comum não é suficientemente capaz de orientar e decidir em todas as siutacões...
Até onde pode ir a prepotência de um senso comum? Não sei, a minha vai longe
Continuando...

Liran foi o meu guia cultural e com ele aprendi muito sobre a historia, costumes e maneiras de ver esta mesma vida por que todos passamos...
Perto de Telaviv, ele vive na praia e diz que o ambiente é óptimo. Não sente tensões na grande cidade e pode-se ter uma vida perfeitamente normal sem qualquer transtorno... No entanto, há sempre a hipótese de chegar um autocarro Palestino suicida que rebente com muito...
Uma “guerra fria” que dura há mais anos que eu, que sempre passou paralela à minha vida e que hoje torna-se real pois tenho amigos que a vivem!
Agora gozam a felicidade de novos mundos e de conhecer duas Portuguesas que também têm muito para lhes mostrar.
Levei Liran, pela primeira vez, a uma igreja e contei-lhe a parte da historia em que os Cristãos se separam dos Judeus. Que o Deus é o mesmo e que para nós Cristãos, Jesus é o Messias que eles ainda esperam.
Sim! Jesus era Judeu.
E a família Dele também?
Como é um casamento Católico?
As igrejas têm lugares marcados?
E eu, posso me sentar ao teu lado? Na Sinagoga, “cada macaco no seu galho”...
Trocámos experiências e culturas e no fim, brindámos à diferença, à fé e ao facto de nos termos conhecido.
Foi mais uma vez, o despertar para novas realidades, novos mundos, novos destinos marcados para depois... Um depois, breve!

Cusco e mais Peru

O comboio era audaz; parecia antigo...
Tinha muito de Eça e das suas travessias Paris-Tormes, com uma paisagem que se ia revelando ao longo do “trotar”. Esse som que me ajudou a sentir numa dessas carruagens passadas que transportam grandes aventureiros em busca de uma qualquer esmeralda perdida.
Fumegava algo que se ia confundido com as poucas nuvens abraçadas aos cumes que nos rodeavam. O percurso Machu Picchu-Cusco é realmente fabuloso, inspirador. Depois de liberto de um caminho apertado entre montanhas e um rio, o comboio goza da liberdade do amplo Vale Sagrado onde o Império Inca deixou palácios, templos e um enorme complexo de armazéns e casas de campesinos.
Com um amigo da Oikos, explorámos esses retalhos de vitoria, essas construções inexplicáveis de pedras polidas, encaixadas certeiramente como um quebra cabeças de plástico.

Ollaitaitambo e Pisac são as tais aldeias Incas com um encanto próprio, reveladoras do domínio no transporte de águas, arquitectura e astrologia.
Revendo-as da janela do meu transporte a vapor, vou pensando como é inútil encontra explicações para tanta coisa que a vida nos mostra... Há tanto com que nos temos de, simplesmente, conformar, aceitar ou contemplar...
Cusco chegou como a vi partir: Linda, pitoresca, colonial, Inca, limpa, cheia de cor e vida!

Está num vale altiplanico rodeada por montes de cor encarniçada, a mesma cor dos tijolos que fazem todas as casas em redor do centro. O centro é tipicamente espanhol, com ruas de calçada e uma praça engalanada por duas Igrejas de pedra. A catedral e a da Companhia, ambas deslumbrantes por dentro e majestosas por fora. Toda a praça é enfeitada por varandas e arcadas, muitas luzes e gente.
Da praça, serpenteiam ruelas com vestígios Incas e lojas a transbordar tentação onde perdemos a cabeça e o tostão.
Explorámos tasquinhas, bebemos muita coca e conhecemos mais a fundo os povos pré-incas que se exibem nos museus mais interessantes, com fabricas de artesanato desse tempo...

O ponto alto foi a inacreditável oportunidade de nos instalar-mos no melhor hotel da cidade. Inesperada surpresa levou-nos a um dos quartos do Monasterio e a uma das suas salas de massagens exóticas.
Recuperando assim do esforço físico a que os trekings e escaladas nos obrigaram, fomos princesas e muito bem tratadas.
De Cusco partimos em direcção á fronteira com a Bolívia, no lago Titikaka. Uma viajem não muito confortável mas onde encontrámos Portugueses animados e um noticias lusitanas.

É de Puno que saem barcos que visitam as ilhas do Lago, navegável, mais alto do mundo.
Embarcámos...
Estou num quartito forrado de sacas de batatas, no cimo de umas escadas de pedra, inclinadas para a frente à descida, pedindo que nos atiremos...
A maravilha desta vez é estar numa ilha, no meio do lago Titikaka, instalada em casa de Hilária. Uma senhora peruana que abre a sua vida aos que querem assistir de perto a uma cultura viva, Ketchuablante, indiferente ao passar dos anos e do progresso.
Veste uma saia muito rodada, verde alface e saiotes muitos que lhe dão essa forma cúbica e atarracada.
Para cima, uma camisa imaculada, bordada à mão, com motivos florais de todas as cores. Por cima da cabeça, sereno, um manto preto que cruza nas costas até quase às canelas, também com flores bordadas. A acentuar-lhe mais ainda a figura de boneca de pano, uma faixa às cores, bem apertada à cintura e uns sapatinhos tão discretos como o seu andar.
Nesta ilha não há hotel nem restaurante e o grupo foi distribuído pelas varias famílias, dois a dois, participando das refeições e convívios de cada uma.
Da varanda que dá para um pátio interior de pouco mais de 4m2, uma vista deslumbrante de um dos maiores lagos do mundo que se eleva a alturas andinas, frias e azuis escuras.
Observo esta família e não consigo conter a gargalhada, ainda que muda, de quem está embebido numa completa novidade, num ambiente totalmente alheio á (muita) imaginação.
Um dia a dia ancestral, rodeado por ovelhas e criancinhas de gorros orelhudos, um silencio sorridente de quem caminha para o seu respectivo socalco onde semeia, colhe e sobrevive...
Subindo o monte mais alto, fomo-nos cruzando com muitas outras “bonecas de alfinetes”, atarefadas na sua roca de tear mas sorrindo e acenando com as suas cabecinhas de “virgem”
No alto, uma vista sobre a Bolívia e outras ilhas do Titikaka, nuvens inspiradas e um café num banco corrido que aqueceu a alma.
Á noite fomos convidadas para ir à “disco” da zona. Vestidas a rigor e bailando ao som de uma banda de flautas de Pan, Charanguitos e tambores, tocados por crianças, divertimo-nos como nunca e rimos tanto uma da outra que chegava a parecer insulto...mas não!
Antes de chegar a terras Bolivianas ainda pisámos uma das ilhas de palha que flutuam pelo lago. Urus parece de brincar e lá dizem viver muitas famílias, conservando uma tradição ambulante de muitos anos. A ilha não tem mais de dois metros de altura e o balançar é evidente. A ultima: uma ilha onde são os homens que fazem tricôt e o artesanato têxtil.. Foram dias recheados de experiências caricatas e gargalhadas...

terça-feira, 6 de Novembro de 2007

Machu Picchu do Alto

As primeiras escadas não eram difíceis.
Levava uma mochila de peso médio e uma cantiga de baixo da língua.
Os primeiros raios da manhã animavam de brilho as folhas e as pedras, pinceladas pelo orvalho.
Estava sol e nevoeiro, um nevoeiro com vontade própria que, tão rápido nos envolvia numa asfixia saudável, como nos deixava livres para entender a dimensão das coisas.
A subida começou e os degraus passaram a simples pedras, toscamente sobrepostas e só confortáveis para quem tivesse pernas de diferentes alturas e que as fosse escolhendo à medida do acontecimento...
A partir daí foi uma autentica pista de obstáculos envolta em selva e orquídeas. Inspirações medicinais de um respirar ofegante que queimava de frio a garganta.
As paragens eram obrigatórias e o encorajamento típico de quem não se conhece mas que luta pelo mesmo fim, ia preenchendo de risos e sotaques aquela fantástica subida.
E a cada lance de pedras, a cada passagem estreita de folhas que me encharcavam a cara, a cada pensamento e lembrança de outras selvas, de outros passeios e de outros destinos em que nunca se vê o fim, a minha cantiga saía descaradamente de baixo da língua, saltando da boca aos solavancos do cansaço e do bater do coração.
E lá ia eu a passos cada vez menos firmes, de cabeça vazia, fixada no obstáculo seguinte, na ponta das minhas botas, no chão e mais nada!
De repente as árvores e folhas desocuparam caminho e a luz conseguiu entrar. Um enorme patamar surgiu num abismo, finalmente revelador, e a minha respiração ficou lá atrás.
Não era o topo, era um dos inexplicáveis socalcos construídos na montanha há quinhentos anos. Foi desse socalco que se suicidaram os meus olhos numa infinita beleza, envolta na luz de madrugada da cidade misteriosa de Machu Picchu.
Subo ou fico? Era o dilema...
Não conseguia salvar os olhos, que continuavam a cair, mergulhando numa imagem perfeita, de casas de pedra organizadas, de cidade vitoriosa, escondida, invencível!
Parti á descoberta da subida e de outras ruínas que apareciam agora pelo caminho.
Passei túneis e subi por cordas até que, finalmente... o cume!!
Como gatos num telhado, os andinistas equilibravam-se nos penhascos estreitos e traiçoeiros, não sendo nada fácil encontrar um lugar seguro. Mas uma vez instalada relaxei os músculos e a mente, respirei o difícil ar das alturas e entreguei-me àquela imensidão de montanhas e ao espectáculo de ver uma cidade construída no meio delas, quase impossível...
Ouviam-se suspiros e gargalhadas de satisfação. Aquele era o momento e ali aconteceu... Ali se deu uma das mais fantásticas criações, ali surgiu o raro fenómeno de encontrar uma musica suficientemente digna de um lugar perfeito.
A musica perfeita que me fez voar, atirar-me de cabeça para o abismo e ficar suspensa por mil gotinhas de agua, também suspensas, que dançavam e me atiravam por brincadeira umas para as outras, para as nuvens...
Almofadei-me nas nuvens e ouvi aquelas montanhas cantar, em coro, como um hino.
A musica deu vida à natureza que já era perfeita mas, que nesse momento, se elevou à alegria humana.
Eu estava lá, a assistir ao mais belo bailar de tudo o que os meus olhos alcançavam, a sentir a musica cada vez mais alta, sem parar, mais alto ainda, toquei o céu e hoje não me lembro que musica foi!

Há descida desse fabuloso Huaina Picchu senti-me parte daquele todo e hoje, quando me lembro dele, estremeço tal e qual como ao lembrar um bom momento com um óptimo amigo.
O Adam acompanhou-nos no explorar do Machu Picchu e das suas esquinas de surpresas, sempre com piadas e mais cantigas, muitas fotos e um fim de tarde cúmplice e em silêncio.

Voltei a Cusco com um sorriso na boca de quem tem a alma cheia, cheia de tamanha contemplação...

segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

Olhem sò quem eu encontrei na Bolivia!!!!



O SALVADORRRRRRRRR!!!!!
Estava armado em parvo e me respondia em hebreu mas foi óptimo matar saudades da família...

quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Uma familia Peruana

Lima não prima pela beleza!
São dois andares de uma massa compacta de tijolo por pintar, terraços por acabar, de vigas e cabos de aço ao leu, eternamente à espera.
Está ao nível do mar mas tende a estender-se às montanhas que a rodeiam, tornando a vista numa autentica praga cinzenta que contamina o ar, que sufoca o espaço livre.
Não há céu azul, não há sol amarelo, não há diferença entre a cor das casas e do firmamento.
Tudo está gradeado e algemado por toneladas de ferro e arame farpado, que hoje em dia tentam alguma estética, fazendo grades em forma de flores ou outras tendências da moda.
Até as ruas são fechadas por portões, sendo tarefa complicada, chegar a casa depois de uma certa hora.
Quando se ganham as primeiras afeiçoes à cidade, já se consegue gozar das, semeadas, fachadas coloridas; lojas e lojecas atafulhadas de marcas desconhecidas e saquinhos de galhetas; a voz de um cantor latino a berrar de uma barbearia; autocarros imortais, essas anedotas com rodas, podres, e pintados de muita cor; o típico macho latino a passear ao Domingo de brilhantina penteada e os cactos de faroeste plantados nos canteiros.
Afinal Lima tem os seus encantos mas só os descobri quando passei três semanas a viver com uma família Peruana.
O José é um português que vive no Peru há mais de 30 anos, aí representa a OIKOS e tem o perfil ideal de para tal. Sonhador, altruísta e simples, leva a vida da mesma forma que leva todos os projectos da ONG, por inteiro, olhando a verdadeira necessidade do outro, suando sem ganhar por isso. De uma certa maneira, devolveu-me o encanto que tive por estas organizações e, através do seu exemplo, voltei a acreditar que se pode realmente trabalhar neste sector com o mesmo propósito para que foi criado.
Sara, peruana, casada com José, é economista de nascença e pratica por natureza. É daquelas pessoas que se entusiasma a contar historias, que não tem muitas “papas na língua” e que segue a vida sempre segundo a lei e segundo a realidade.
Sérgio, o filho mais velho. Tem 25 anos, um outro crânio da economia, viajado, de sorriso contagiante e de um espanhol tão rápido que muitas vezes me limitava a responder: “Si, si. Claro, si.”
Eva, o bebé da família e uma alma cheia de energia nos seus 22 anos. Tão igual a tantas outras raparigas da sua idade, está no curso de Marketing, tem um namorado e muitas amigas com quem adora beber uns tragos e ouvir cantigas românticas. Foi a nossa cicerone por tudo o quanto eram bares e discotecas, lugares agradáveis para beber um café, o centro com as suas casas coloniais com varandas trabalhadas e arcadas magestosas e os principais monumentos, os autocarros apinhados e muitas fotografias em pose, posteriormente estudada, que só variava na roupa.

Pepo. Outro membro da família que muito nos animou mas que não foi muito com a minha cara... nem com cantigas fui lá!

Entre muitas conversas, muitos almoços e jantares, saídas e entradas de casa, e trabalho na Oikos, fui me sentindo cada vez mais integrada na cultura peruana, percebendo as diferenças e semelhanças, tirando conclusões criticas que partilhava com a Rita e que me fizeram gostar realmente de estar em Lima.

Viver um lugar é tão diferente de o visitar... Riquezas que trago comigo mas que me são tão difíceis de transpor, momentos que me fazem compreender melhor o mundo e principalmente o lugar do meu mundo no Mundo. Aonde me situo, aonde está Portugal, aonde e como quero eu viver...
Visitámos o projecto da OIKOS em Comas, um distrito de Lima, onde barracas se engolem umas ás outras na ânsia de subir o morro.
Lá, estão a fazer escadas e socalcos para segurar a montanha e prevenir desastres.
Passámos uma outra semana no Norte (Chiclaio) onde a Oikos tem um outro projecto de desenvolvimento sustentado em prol do melhoramento e ensino de técnicas agrícolas, alfabetização e saúde.
Esse pueblito também me encheu os olhos com a sua simplicidade, com a sua praça de armas onde todos nos acenavam simpáticos chapéus, sabendo já que éramos portuguesas e o que andávamos a fazer.


Cores incríveis, a natureza a dar o seu melhor e ruínas de pirâmides pré-incas á mão de semear. Estivemos a apoiar a parte de escritório, estando a Rita a ensinar Excel e eu a tentar dar uma ajuda na parte de comunicação de projecto.
Em menos de nada já estava num autocarro-cama a caminho de Cusco, lembrando o bom que foi ter rotina, o bom que foi aprofundar conversas, ter comportamentos e atitudes para observar.
São pessoas a quem agradeço a hospitalidade e simpatia mas principalmente os horizontes que me abriram e a novidade que plantaram em mim.

sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Antes dos Incas, Tupe!

Há o Peru turístico, há o não turístico e há ainda o Peru aonde, nem os peruanos vão...

Inserida no projecto de emergência da OIKOS, que socorre as famílias afectadas pelo enorme terramoto que destruiu grande parte de pueblos peruanos, EU tive a sorte de ter sido destacada a Tupe e de ter presenciado uma cultura completamente distinta do resto do Peru, que mantém tradições anteriores ao fabuloso momento Inca.

O jeep pedia descanso! A estrada subia, era seca e atraiçoava com milhares de pedras soltas que se suicidavam num precipício fora de escala,
que cercava todo o caminho.
A estrada acabou e os três caminhantes ficaram, dizendo adeus ao único sinal de vida, que se lançava novamente ás teias daquele carreiro...
O Javier, a Maria e eu, atulhados de mantimentos e boa disposição, pisámos o primeiro de 7 kms que separam Tupe da estrada de areia mais próxima.
É possível que Tupe seja uma das aldeias mais isoladas do mundo e para lá chegar são três horas de alpinismo onde nem uma mota sabe...

Vamos sempre aconchegados á montanha, enfeitada de cactos, esses dos filmes de sombreros e Mariachis... Contornamos com cuidado, pedras que atrapalham o caminho e o tornam numa verdadeira aventura. Lá em baixo vão surgindo novas formas e movimentos de um vale imenso, verde, para sempre entalado nessas áridas rochosas, montanhas.
A caminho de casa, rápidas como a própria agilidade, vão senhoras mais velhas que a minha avó, em passos leves e cómicos.

Muitas delas levam vacas e burros, seu sustento e companhia, que se vêem muitas vezes atrapalhados na aspereza do caminho. Esse que a mim já venceu e está prestes a matar!
Sou salva a tempo... Uma grande queda de água fresca e potável, aproxima a relva verde e abre uma clareira para que recuperemos o folgo.

Ergue-se este, quase irónico, portão e do lado de lá, os rostos já informados, mas não menos curiosos, esperam a chegada dos três forasteiros...
O rio e o solo fértil fixaram-os na serra escondida, muito antes dos Incas ter surgido, dominando, “até hoje”, o Peru.
Como o acesso é tão inóspito, a Tupe não chegou o desenvolvimento que chega com as estradas, havendo um colectivo que os leva à cidade duas vezes por semana ou a carrinha municipal, mais frequente, mas que só faz o transporte de mercearias e da insolente Coca-cola.

Falam uma língua única em todo o mundo e únicos são os costumes que acompanham quem permanece fiel a essa terra longe de tudo... Longe do mundo.
As mulheres vestem-se todas de igual. Vestidos como só lá, de quadrados vermelho garrido e lenços á saloia. Umas faixas bordadas amparam os rins e enfeitam os, já enfeitados, trajes. As raparigas pequenas são autenticas miniaturas deste formato e seguem o costume de acabar a primaria e começar a ajudar em casa ou na criação do gado.

Os homens usam chapéus e as ditas cintas apertadas, têm gado ou horta e os mais conceituados, reuniões municipais na praça de armas, ao toque do grande sino. Este que põe toda a aldeia a par das novidades que quebram a rotina diária. Festas, telefonemas etc...

As casas e ruas são feitas de pedra, tal qual aldeia nortenha do nosso tão granítico Portugal. Lá dentro, mais negro que a escuridão é o fumo, que invade os recantos, se instala nos cabelos e tecidos, se apropria da área e se lança vitorioso pela brecha do telhado de zinco já negro, dando sinal a toda a aldeia de que ali sim! Há manjar!

A nossa missão era o fazer o levantamento das casas mais destruídas e das famílias mais afectadas com esta tragédia. Depois de uma reunião com as autoridades e de termos uma lista de nomes na mão, iniciámos a subida e descida de “ruas” a pique, onde pedras aos montes, impediam passagem e declaravam a real necessidade deste povo.
Pela praça estendem-se tendas de campismo e tachinhos ao lume. As crianças, essas, são imunes ás desgraças e brincam e sorriem e fazem festa à novidade que os intimida, mas atrai...
Dormimos numa casa nuns escombros a que chamavam hotel e todas as refeições eram feitas em casa, ora de um ora de outro, com pratos indecifráveis mas bem ricos.

Apesar de agora estar lá um sociólogo a fazer uma pesquisa mais meticulosa, foi difícil olhar aquela desgraça com um certo poder de decisão. Tinha a lista na mão e de vez em quando o Javier (Eng) piscava-me o olho em sinal de “esta está boa”, quando na realidade só se viam pedras e rostos enrugados de suplica.
À dor houve que juntar-lhe a frieza para que a san
idade ficasse e assim conclui-se o trabalho, projetou-se progresso e tentou-se servir os mais menos.
De volta, descemos ligeiros e sorridentes pelo caminho que, desta vez, foi de hora e meia, a cantar e a recordar momentos caricatos como o da vaca que ajudámos a parir a meio do caminho ou o do que chamavam “restaurante” que não passava de uma clareira no meio dos escombros com uma panela a ferver.
Foi uma experiência única de paisagens únicas, que me fez agradecer ter ficado para trás a selva e as leanas e todo o conforto do mundo...

O progresso

Vim da Ilha da Páscoa cheia de ideias para a minha estada no Peru.
A Rita estaria integrada numa ONG em Lima (supostamente ambiental) e eu já magicava descidas de rios em canoas indígenas e o desbravar de selvas e pântanos.
Com os mapas ás voltas, definia como iriam ser essas duas semanas em que a Rita trabalharia e eu exploraria a Amazónia Peruana.
No aeroporto de Lima já nos esperavam um táxi que nos levou aos humildes, mas muito a cima das expectativas, aposentos improvisados nos escritórios da dita ONG.
Era uma noite só... Eu só ficaria uma noite!! Logo depois partiria para a selva, de liana numa mão e repelente na outra.
Chegámos tarde, cansadas, a uns escritórios que se tornaram aconchego e poiso confortável. Um duplex com varanda, pequeno e bem arranjado. Pelos umbrais, presépios de barro e outros motivos, muito típico de certa região.
As paredes... Essas sim! Marteladas, pintadas de branco, lembrando uma casa algarvia, estavam cheias de molduras, grandes e pequenas, que faziam saltar rostos coloridos, com vestimentas pitorescas e sorrisos estridentes!
Eram fotografias de projectos antigos, implementados por essa ONG.
Eram fotografias de rostos queimados pelo sol, salpicados de sardas e um transparente nos olhos tão liquido e vivo...
Fotografias que trespassavam os meus olhos sem pedir licença e preenchiam a noite que, para mim, não estava a escurecer... Essa noite que acabaria por mudar os meus planos.
No dia seguinte apresentámo-nos ao José, representante da OIKOS e pai da família que nos recebeu.
Decidi oferecer o meu tempo para o que fosse preciso. Afinal não se tratavam de projectos ambientais, mas sim de projectos de desenvolvimento sustentado, em áreas como a saúde, educação, desenvolvimento agrícola e outras actividades que visam diminuição da pobreza e o avanço económico de pequenos produtores e comunidades.
Para alem disto, acabava de começar um projecto de emergência, por causa do terramoto, que destruiu aldeias inteiras deixou mais pobre ainda um Peru que não vem nos guias.
Por estar a começar, permitiu-nos integrar na equipe e assistir às primeiras reuniões de coordenação e tomada de decisão.
Começou então a nossa viagem por pueblitos perdidos e estradas de areia, que levam aos vales mais apertados e percorrem secamente os Andes mais secos.
O trabalho: levantamento das casas e sistemas de agua potável, mais destruídos e famílias mais afectadas. Divididos em grupos, espalhamo-nos pelos 10 distritos contemplados e iniciamos a dolorosa tarefa de decidir quem vais ser ajudado, quem sofreu mais, não dá para todos...

segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Há dias assim...

Estamos aqui!
Paradas, especadas.
Há momentos assim em que tudo o resto era preferível.
Entretemo-nos a sonhar onde queríamos estar...
- Na linha, numa esplanada, com uma carta de saladas conhecidas. A acompanhar, o sumo de maça que bebemos naquele hostal na Malásia... Humm realmente era delicioso.
Volta o silêncio.
Neste banco de jardim da praça de armas de um “pueblito” perdido, só há sol e um sábado. O movimento de sábado lembra-me Paderne e o seu doce – nada para fazer.
- Apetecia-me... hum... uma cerveja. Não, não, uma cerveja não... apetecia-me...
- Sabias que sempre sonhei ter uma casa na Linha?
- Não Rita, não sabia. Vives na Madragoa (risos)
- Pois aí está! O rumo da vida, que traçamos, nem sempre é consciente... Hoje, por exemplo, não me vejo a morar noutro lado, mas toda a vida sonhei ter uma casa na Linha.
Um sorriso permanece como quem está satisfeito com a conclusão e volta o silêncio.
- Vou comprar uma garrafa de água!
A Rita levanta os braços em sinal vitorioso e eu lá parto para a guerra da minha tarefa.
Atravessei a passadeira duas vezes e já estou sentada.
Silenciosamente fazemos amizade com o sol e sentamo-nos ainda mais comodamente – como quem veio para ficar – a este banco de jardim sem historia.
A Rita faz uma almofada com o casaco e eu escrevo, em directo, o que se vai passando... esperando, curiosa, que aconteça alguma coisa “nova” para acrescentar a esta historia.
- Bem! Vai um cigarrinho?
A Rita sorri, aceita e começa a frase que eu acabo: “Take a puff...And kill some time!”
Desfrutamos do movimento da praça como se de uma musica clássica se tratasse, ao som do cigarro... Em silêncio.
Consigo dar uma novidade á Rita, que acabo de me lembrar:
- O Vasco vai ser o padrinho da Benedita!
- Ah! A sério?
E os minutos vão passando de olhos fechados e ouvidos surdos.
Acaba de aparecer um miúdo a cochear e com uma mão toda entortada. Vem a sorrir e desperta-nos do sono a que nos obrigou o calor.
- Hola Chicas! Que tal?
A sua voz é entrelaçada e pouco perceptível.
- Caminas bien?
- Yo? Si.
- Yo no! Fui atropellado y mi padre murió.
Sorrindo fazia graças para nos entreter...
- Esto es un asalto!!
Com as mãos feitas arma de fogo perigosiiissima, faz-nos alinhar, e até excedermo-nos, no teatro do assalto.
Acabo de lhe dar todo o meu dinheiro. (Um recibo de umas compras que fiz há tempos.)
Pega no papel e desata a cantar, olhando o recibo, que finge ser a sua pauta indispensável.
- “Mujer pecadoraaaa, no importa que diga el mundooo. Yo te amo senhoraaaaa
Rimos divertidos, com a tamanha intensidade com que canta e gesticula.
- Ahora tu.
Dando o papel à Rita, que se esforça para não falhar, ante o olhar atento do maestro que logo grita:
- Mundo! Mundo!! No es gente, es mundo!!
- Ah desculpaa!
Não se faz rogado e estende o boné à espera de tostão.
- Cuantos anos tienes?
- No lo se.
E correndo como pode diz que vai cantar para outro lado.
O silêncio volta ao cómodo banco de jardim...
- Esto es un asalto!!
Por trás, aparece novamente o nosso amigo que, depois de nos assaltar mais duas ou três vezes se afasta, desta vez para sempre, destas vidas que acaba de comover, encantar e entreter...

Ainda estamos sentadas mas agora, já estou mais ocupada. Ocupada a pensar que há dias assim... em que mais vale esperar que alguma coisa aconteça do que correr, à procura de fazer acontecer.
Há sempre quem, simpaticamente, nos venha encher os dias...

quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Agora a Ilha...

Esta é a rua onde tudo se passa...
Restaurantes emadeirados, um mini mercado, um aluguer de motas, uma praça de peixe e fruta e claro, um internet café – tudo indicado com tabuletas de madeira pintadas, que balançam com o vento e piturescam a pequena vila.
Enchemos os pulmões do mais fresco ar e sentimos que nestes cinco dias iríamos estar de férias...

Escolhido um hostal acolhedor, alugámos uma mota e aventurámo-nos pelas entranhas de uma ilha com áurea de mistério e beleza sem fim.
Virada de costas na moto4 via a paisagem a ser engolida pelo horizonte: planos e planos que se moviam a diferentes velocidades ao som de Air..
.
Pensei na quantidade de planos que se perdem por não se poder olhar para todos, de uma só vez. Pensei na Rita que, a guiar, não via o que eu via, não podia. Mas o que é que ela estaria a ver?!? O que é que estou eu a perder!!? Enquanto chamava a atenção a meus olhos, para que não fossem tão gananciosos a mota parou e pude saciá-los com uma fabulosa paisagem milenar... Uma cratera com um enorme lago de água doce, feito pântano florido, que reflectia o azul do céu e se encostava harmoniosamente ao mar.
Os Moais, esses sim, são os protagonistas do ponto mais isolado do planeta e desfilam altivos, intimidando todo e qualquer ser vivo.

São de pedra mas empenham uma expressão humana, de profundo dever em defender aquela ilha e não fazem caso das fotografias idiotas que lhes tiram, alguns turistas sem respeito.

Um trekking de três horas encaminhou-nos ao ponto mais alto da ilha, o ponto onde o mar nos rodeia todo á volta, onde me senti autênticamente num transatlântico, de onde vi os vulcões paternos deste “grão de areia”. Os olhos, mais uma vez não chegaram, a maquina tan pouco, mas o imaginário viu ao longe a ilha de Robin Crousué e mil aventuras nesses mares.

Com grande empenho, tentámos o nascer de um sol que nunca veio, mas na hora sexta pôs-se entre nuvens confusas e cores terra, o que deixou uma luz quente, sombras nos rostos e rastos de brilho nas águas.

De barco á vela estavam Pet and Dean: Um casal nos 60 com quatro anos pela frente de uma volta ao mundo invulgar, e mil historias de outras aventuras ao vento, corajosas travessias por muitos dos lugares que tenho na lista para um futuro...Foram uma novidade para mim e fiquei feliz por me cruzar com estas duas realidades: Que existem verdadeiros aventureiros e que a idade está cá dentro!
Como dizia eu, sentimo-nos de férias por isso fomos á praia, almoçamos sandwiches feitas em casa e saímos para jantar de cabelo ainda molhado do banho. Jantares esses com copas de vinho e muitas histórias de um reencontro recente, divertidíssimo...
As pessoas que passam cumprimentam e seguem as suas vidas com sentido. Esta ilha é muito mais do que o turismo e sente-se que ali se vive de verdade. Muitas crianças a caminho da escola, barcos de pesca usados, o banco atarefado, e o mini mercado cheio de confusas conversas entre comadres.

Vivem a ilha com orgulho e quando perguntei se não era claustrofóbica responderam sorridentes que tudo é relativo, que o homem é o ser mais adaptável do mundo, que aquilo é o seu mundo.
Foram cinco dias, completamente novos, inspiradores, que me levaram a uma contemplação profunda, quase levitativa...

Era o sonho da Rita, mas para mim, tornou-se uma realidade antes de ter sido sonhada e talvez por isso, foi dos inesperados mais felizes que tive...

domingo, 7 de Outubro de 2007

A PÁSCOA!

Eles chegaram de barco.
Dispunham das técnicas mais avançadas do navegar, e entre crenças nebulosas e alguns mapas e esquadrias, romperam os agitados mares do Pacifico na certeza de encontrar uma ilha, perdida no mais puro azul, que seria fatia conquistada em seus territórios.
E lá estava ela! Pequenina, vulcânica, Gracejada por Deus em suculenta vegetação, em perfumes e essências vindas da terra, do calor da terra, essa tão pura e preta que dava brilho ao azul da água.

E a água... Morna, cheia de orgulho desse tesouro vivo que protegia, listada de azuis celestes só para entreter os dias, já perfeitos, dessa ilha encantada.

Ali, decidiram eles, levar a civilização. Romper a mais virgem das criaturas que, nem rumando milhas a fio, ate ao mais isolado ponto de Oceano, se conseguiu esconder do Homem e da conquista.
Foram momentos abastados em recursos e gloria onde impérios nasciam e com eles, a acostumada sede de poder, de demonstrar esse poder, de ser sinónimo de poder! Grandes estátuas foram esculpidas na rocha e transportadas para junto da costa, expressando toda a grandeza, segurança e virilidade desse rei e desse império. Esse rei foi derrotado e outro, mais virtuoso, iniciou o árduo esforço de se salientar perante os súbditos e outros povos. Rolaram troncos de árvore, foi aplanado terreno, foram esculpidas mais e maiores estátuas, cheias de expressão, solidez, demonstrando a poderosa existência nessa ilha.
Guerras e outros réis o sucederam e com eles,
mais troncos rolaram, mais braços esculpiram, novos rostos de pedra abriram o olhar vigilante, crendo, cada um, ser o único vigilante.

Os recursos foram-se esgotando assim como a capacidade desta ilha em renovar-se, em refazer-se de tamanho atentado, levando-a assim, ao extremo da desintegração vital, ao canibalismo, ao nada...
Silenciosa, lunar, olhando o seu corpo despido, chorou e permaneceu imóvel, salgando ainda mais a imensidão...

O mar, listado de tanto azul, bem se contorcia em graciosas exibições, mas nem assim, lhe desvendava a verdura de um sorriso.
Até que um dia olhou para traz, para a sua essência, para o ponto mais profundo do que era – e viu, sentiu o calor da sua origem. O calor que vem do ponto mais profundo do que somos, do ponto mais quente da terra que nos cria e recria a cada segundo...
Na companhia dos, muito poucos, homens que restavam levantou-se pouco a pouco, frágil... Ainda assim, decidida e valente!
Passaram-se natalícios anos e, há menos de um m
ês, estive lá...
Foi a visão de uma beleza que desconhecia, uma natureza diferente que me espantou!
Linda e verdejante parece viver a alegria de uma reconciliação recente, exibindo as suas figuras recortadas, negras, banhadas por uma orla de espuma feliz e tão azul...Da rocha mais escura nasce o relvado mais verde e fresco, com buganvílias de varias cores e umas flores encarnadas, carnudas aos gomos.

É o contraste das cores vivas da terra com um céu azul, recheado de nuvens “almofada”.
As crateras puderam, por fim, adormecer... tornando-se lagos serenos onde passarinhos cantam com prazer, intermináveis cantigas de embalar...

E as estatuas aí estão! Imponentes, seguras, protegendo impérios que, não sabem já arrasados. Olham a terra ou o mar com ar altivo e com uma expressão profunda, vigilante.
Estão espalhadas por toda a ilha e agora quem as protege e contempla são os homens.

Facilmente se dá uma volta inteira à ilha e caminhando poucas horas pode-se contemplar uma das mais raras vistas que há no mundo, aquela que nos dá uma visão de trezentos e sessenta graus do Oceano.
Daí pensei nos homens e mulheres que habitam, hoje, a ilha. Pessoas simples, integradas na natureza a tal profundidade que têm mais de animal do que é costume.
Homens tatuados de cabelo comprido, ao vento, correm velozes em cavalos selvagens, que se atravessam em manada, na única estrada da ilha.

Uma chuva miudinha fez baixar as nuvens e uma neblina suave envolveu-me a estes cavaleiros alados numa cena apaixonada, platónica...
As gentes de lá pouco falam, mas protegem com unhas e dentes essa ilha que, finalmente parece ter encontrado o equilíbrio e conforto em ser habitada.

PÁSCOA é aquela ilha: O ressuscitar de toda a Natureza! O ressurgir da Morte para uma Vida, que me pareceu a mim, plena, Divina.



Hoje a civilização voltou á ilha, mas desta vez em harmonia...

sábado, 6 de Outubro de 2007

Uma tarde no Chile

Com alegria imensa revi os Andes Chilenos, do ar.
A sensação de estar a sobrevoar um daqueles mapas bem pintados, que estão pendurados na aula de geografia, numa das podres salas do Rainha.
Quase que não é real, de tão imensa, a cordilheira que envolve a cidade de Santiago.
Lá me esperava a Rita, depois de mês e meio desde a ultima vez que estivemos juntas e sentada a um balcão, rodeada de amigos e bom ambiente.

Num “ratito”, consegui visitar os Erasmus da zona: Chico Cordeiro, Mico e Kiko.
Uma casita bem desarrumadinha, mas que me recebeu com o bom e o melhor, incluindo os (ate então desconhecidos) dotes culinários do Chico, que nos preparou um suculento naco de carne Argentina, de fazer chorar as pedras da calçada (de bom que estava... claro).
Ainda tivemos tempo para uma ida ás compras masculina num centro comercial que fazia tremer de medo o nosso, do Intendente, e por falta de tempo, não pude conhecer nenhum Coyote mas tive pena...diz que é animal que não está em vias de extinção mas bem podia...
Sem tempo para mais, bebi uma cervejinha ao som de selecções musicais para uma segunda-feira, dormi um soninho leve e acordei já a sorrir por saber o que me esperava: Um voo para a Ilha da Páscoa.

quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Sem Alma!

Dei passos ao acaso à saída do Aeroporto. Aqueles passos que não são conduzidos por nenhum raciocínio lógico, que parecem ter vida própria e que nos conduzem, na maioria das vezes, aos mais ricos destinos. Um rapaz que arranjava a estrada apontou-me um saco perdido na berma e mais à frente, um carro que se deslocava a uma velocidade surreal. Eu peguei no saco e, sem ter de correr, bati na janela do carro para entregar o perdido. Lá dentro, uma senhora antiga com um motorista que a viu nascer, regalaram os olhos ao ver-me empoleirar o saco à janela. Ficaram tão agradecidos que me conduziram, vagarosamente, ate à estrada principal, onde poderia apanhar certamente um boleia e os 2km de caminho deram tempo para contar histórias passadas e algumas aventuras de viagem. Mais uns passos daqueles, uma rapariguinha fardada, a caminho da escola, ensinou-me que para apanhar boleia, mais fácil seria escrever um cartaz com o destino e esperar com confiança. Três carros passaram e o quarto empenhou um enorme sorriso que me faria entrar no mundo da Nova Zelândia campera, dona de uma quinta com muitas centenas de ovelhinhas e um banco cheio de pelo de cão e ração. Enquanto descobria que a N.Z. tem menos de metade da população portuguesa, que a ilha do sul tem a mesma de Lisboa, que as ovelhas são mais que gente, que o governo tem dificuldade em dar uma qualidade de vida abaixo da media alta, que a protecção da natureza é maior do que a da própria vida humana e outros básicos de um primeiro encontro, sacudia a janela e colava os olhos no movimento da cordilheira gelada que atravessávamos. Rios quase secos, transparentes, com pequenas rochas a intercalar a areia lunática, preta, onde brilham pedras preciosas, polidas. Enfileiramos numa estrada apertada por fetos gigantes, árvores frias e molhadas cobertas por um nevoeiro raso, opaco, místico, que me lembrou as "Brumas de Avalon" da minha mãe. De repente um lago muito liquido, onde os patos rasam, desafiantes, toda a beleza espelhada. Tremendos, esses lagos que surgem inesperados, gigantes, quase nos sugam na sua imensidão...mas não...já lá não estão!! O verde das planícies é florescente, limpo, artificial, florido por ovelhinhas domesticadas, muito limpas, reflectidas nos laguinhos brilhantes e ensolarados. Fantásticas montanhas aproximam-se trazendo a cor e a magnitude que se espera de um grande ecran mas nunca da vida real! Arvoredos e grandes folhas misturam ao acaso a paleta mais completa de cores de Outono. Os verdes são incontáveis, os amarelos, os castanhos, aqueles encarnados muito fortes! Tudo pincelado pelo orvalho que dá relevo e enlevo à Natureza. Os cumes rochosos e áridos, polvilhados por uma neve pouco segura, parecem agressivos e inacessíveis e impõem todo o respeito, que à Natureza devemos dar. Nesses, estou certa que o cajado de Moisés andou, distraidamente, a abrir fontes e torrentes de água que cai a pique, que dá toda a vida! Dou por mim a chegar, por entre a noite mais escura, à estalagem que me foi conduzida por um casal de media idade que fazia ferias cá dentro.Nestes dias andei num glaciar e fui à praia; vi leões marinhos e paraquedistas; conheci, do mar, as montanhas famosas de Milford Sound e penetrei nos vales onde se escondem os lagos que reflectem a imensidão das montanhas mais brancas do planeta. Vi Portugal jogar e fazer sucesso nos meio dos Blacks, que me cantaram o nosso hino nacional em profundo "fairplay", apanhei boleias ao calor, apanhei tareias do frio, caminhei em florestas assombradas e viscosas.

Ás tantas entro num carro onde Joe, Neozelandês de 50 bem conservados, fazia uma visita guiada a um Filipino que conhecera na Internet. Este, andava com um guia chamado "The places of The Lord of the rings". Não descansou enquanto não viu todos os reais cenários de heróis e monstros e eu, senti-me a mais privilegiada do acaso. Joe, famoso escritor e uma excelente companhia foi simples e dedicado cicerone, deixando-me no lugar onde a noite é quase dia... Lake Tekapo tem o observatório astrológico com as melhores condições em termos de luz e poluição e a poucos metros da pequena "Town" comprovei a imensidão infinita do céu mais iluminado que a terra tem.
Apesar de toda esta beleza concentrada, a N.Z. não me conquistou! Talvez tenha sido a má experiência de passar infernais dias, doente e sozinha. Mas mesmo depois de recuperada e expulsa a solidão, continuei a olhar para um pais distante, vazio, sem historia nem paixão. Um país sem alma!...
Tudo é perfeito, limpo, indicado! Todas as casas são pré-fabricadas e as bermas aparadas. As árvores são simétricas, as ovelhas e vaquinhas, ordenadas num verde relvado com montanhas nevadas por traz e um aroma a Cadbury's. Há bancos de jardim por toda a costa, as 4 estradas não têm desvios, o alcatrão não tem manchas e até o mais inóspito destino apresenta tabuletas pintadas de fresco. As sebes estão podadas, caixas do correio engraçadas e realmente parece o mundo dos fantásticos cenários dos anúncios irreais da Playmobil.Aqui parece não viver ninguém a não ser turistas e quem trabalhe para eles. Não se vêm famílias atarefadas num dia a dia agitado, não há centros comerciais, azafama, stress...nem uma só mancha a borrar a pintura! Em pouco tempo a beleza torna-se monótona; o estar, desesperadamente chato e talvez não seja assim tão estranho que este país tenha uma das mais altas taxas de suicídio do mundo! 'E certo que não estive na "frenética" ilha do Norte mas percorri toda a do Sul e já não aguento a falta que me faz a confusão, o trânsito, as estradas por arranjar. Rostos suados, sorridentes, autocarros apinhados, a minha mala na lama. Os cantares devotos de quem tem fé, a linguagem gestual que nunca obtém o resultado esperado, a falta de mapas, a falta de placas, bancas de rua e dormidas baratas...A poucos dias da América latina, vibro na certeza de reencontrar um mundo onde me sinto mais em casa: Onde haja cor, onde haja musica, onde haja Vida!..
Levo comigo um postal panorâmico, inanimado, perfeito e uma pontinha de vontade de, mais tarde, me vir a reconciliar com o nosso antípoda!

domingo, 16 de Setembro de 2007

Fox Glacier

Ao sair do carro tudo me incomodou. A roupa, as botas, o frio, a febre, a chuva torrencial, o próprio passeio que ia fazer!
Não abri a boca para expressar o que fosse e à medida que os caminhos se iam fazendo pus a cabeça nas botas, automática, coração de pedra e de gelo, passo a passo.
O carapuço, ou protegia da chuva ou mostrava o que ia para lá do casaco. Fiquei dentro do casaco mais vazio que vesti até hoje...
Roguei pragas às pedrinhas irritantes e às meias que picavam, estava triste, não desejava nada!
Atravessámos um largo rio que se dividia em mil pedras polidas, bonitas e dois riachos cheios de água corrente muito viva. No primeiro gostei da leve sensação de saltar as pedrinhas sobre a água. No segundo era obrigada a enfiar, dentro do rio, as duas únicas pecas de roupa seca que tinha: as meias!
Com a máquina na mochila prestes a correr o risco de inundar as peças únicas, o meu silêncio petrificava ferozmente, não descansava e faltava tanto por fazer.
Entrámos então, num trilho no meio da floresta, que nos guiava por 500 degraus naturais e arranjados, ate ao cume do glaciar: O Cumulo!!!
O trilho era estreito e continuavam a chover as lágrimas de Maria Madalena que emusgavam os degraus de pedra; faziam crescer suculentos e de todas as cores, os fetos gigantes que me roçavam a cara, tentando acalmar a minha expressão franzida. Num desses, parei para ver a complexidade e beleza das suas folhinhas e microrganismos que parasitavam simetricamente. Eram tão frescos que apetecia beber-lhes as gotinhas ou simplesmente desfazê-las, uma a uma, com a ponta da luva...começava a gostar da tarefa e ... um encontrão do matulão de trás!!
Desculpem se parei o ritmo do grupo para olhar para aquilo que viemos ver!! Desculpem SIM!?!
Voltei a enfiar-me tartarugamente.
Íamos subir, digo mesmo, escalar uma escadaria de 300 degraus seguidos!
Com correntes indispensáveis e nada que atrapalhasse as mãos lá me aventurei em mais um obstáculo.
Este era tão minucioso e perigoso que me esqueci da chuva, dos olhos turvos, das poças nas botas...
Continuava a empregar toda a minha concentração na forca de braços e nem dei conta que o carapuço me saltara e que escorriam litros de água pelas golas da camisola.
Ao chegar ao cimo, um calor abrasador queimava por dentro e o frio seco e paralisante queimava por fora. O maior incómodo dos opostos, naquele momento, não teve a mínima capacidade contra mim. Tinha-me entregue completamente à beleza de um horizonte manchado, gelado, Magno! Tinha-me rendido à forca da natureza e já não protegia nem sacudia nem sentia.
Atravessei o limite do desconforto e passei para o mundo livre do descobridor, amigo da chuva e da lama. Integrado no seu habitat, encantado pelo mais pequeno movimento das folhas...
Agora fechava os olhos e deslumbrava-me com a quantidade de novos sons que resultavam da percussão da chuva nos fetos, nas pedras, no meu casaco, nas pestanas dos meus olhos, vidrava-me na complexidade das formas das pedras, das rochas, dos cascalhos soltos; fascinava-me com a luz pálida e brilhante que vinha algures do glaciar que ainda não via.
Então, com um sorriso interior que me aquecia, trepei todos os degraus; atravessei quedas de agua incontornáveis; desci, agarrada a cordas, trilhos tão estreitos que qualquer falta de cuidado me faria perder para sempre no precipício para onde escorria toda a chuva.
Saltei troncos caídos, apanhei flores ensopadas, cantei a "Chuva de Verão" e preparei-me para o encontro derradeiro com aquele que era o objectivo esperado: Um glaciar enorme, azul! Apertado, num vale, por duas enormes produtoras de clorofila e terminando em forma de onda estática. Uma massa fria que avança ou recua a seu belo prazer e que solta rugidos do mais profundo do frio.
Caminhei meia hora nesse chão estranho ao meu andar e senti-me completamente vulnerável. A beleza ameaçadora da Natureza no seu expoente máximo!! Aquela que atrai e que trai a qualquer momento. Venci-a e ficamos amigas...
No banho quente recordei os passos mais emocionantes, as perspectivas mais bonitas e aquela peca única, talhada artisticamente em centenas de fendas e recortes misteriosos, gelados, perfeitos!

quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

SIDNEY

No avião Darwin-Sidney conheci uma portuguesa que ia lá passar os mesmos três dias que eu e concordámos fazê-los juntas, tratando de encontrar poiso bom e barato. Ela não achou bom e eu não achei barato mas Sidney não é a Ásia e nem sempre me lembro disso...Logo á chegada um passeio pela "Expo" lá do sitio, uma marina em "V" onde bares e restaurantes com pinta, desfilam frente a frente numa competição sofisticada e cheia de sol.Voltamos ao nosso centro de Backpackers muita cool e muita fixe, cheio de malta cool que vêem os Simpsons e que têm meetings so cool e salas de convívio awesomeness!! Alinhei num tour que mostrava de raspão o que valeria mais a pena aprofundar. Uma vez orientada, o passeio tornou-se incrivelmente mais simpático e Sidney abriu um novo ficheiro nos meus registos. Uma cidade completamente nova daquilo que o meu senso comum informava ser uma cidade moderna. A palavra é: descontraída! Á espera que abra o sinal estão três turistas, um surfista de fato, uma senhora na elegância dos 50 com uma tatuagem a sair da gola do tailleur, um puto de skate, dois pastores da igreja protestante, um gay e eu! Todos numa deliciosa atmosfera de quem tem tempo para tudo porque a cidade o permite. As próprias ruas dão passagem aos mais apressados e fazem conversa com quem passeia. Largas, espaçosas, com uma elegante combinação entre modernos arranha-céus e edifícios trabalhados, do sec XIX, que ocupam vários quarteirões e não dispensam apresentarem-se logo pela fachada deslumbrante. Do alto da torre mais alta percebi a espetacularidade da geografia.
Não saí iludida pois muitas baías são artificiais, apesar disso não deixa de ser uma brilhante conjugação entre a natureza e a arquitectura humana que impressiona: Línguas de terra aonde se encostam com jeitinho enormes arranha-céus iluminados, entram mar a dentro, ficando indefinido qual é a área maior...se a do mar, se a da terra. Ilhas quase afundadas por mansões, uma ponte de ferro e a Opera... No amanhecer seguinte percorri o famoso jardim botânico, tão bem cuidado como se de uma só flor se tratasse. Plantado no meio da cidade e terminando mesmo em cima do mar com vista para a Opera, este monumento natural refugia centenas de espécies bem identificadas de flora e fauna como por exemplo os míticos morcegos gigantes. Autênticos Batmans á solta, sobrevoam e penduram-se de cabeça para baixo guinchando e espreguiçando-se freneticamente! Chegada à Opera respiro o fresco do mar e gozo do meu sol preferido: o de Inverno! Aquele que aquece e reconforta, o que dá os nutrientes mas não seca, o que tem a humildade de permanecer sabendo que nos esquecemos dele, de tão neutro que fica o nosso corpo; o que da a beleza as marinas com barcos e esplanadas; o que nos lembra que um dia virá o verão..Aí espero pela visita guiada à Opera e dou uma olhadela no programa dessa noite. Orquestra Sinfónica de Sidney toca Srtavinski e uma compositora moderna, marada, que mistura Fox Trot com Xilofone.Foi uma noite encantadora acompanhada por um casal nos 70 e um invulgar lugar por de trás da orquestra.A sala ofereceu as melhores condições e deliciei-me a apreciar pormenores acústicos e arquitectónicos. Voltei para casa com uma gripe das piores mas cheia de musica e certa de que esse é o meu oxigénio, que me teletransporta para dias felizes e sustenta o meu mais profundo silencio.Passei pelo bairro típico "The Rocks" com as suas casas típicas a colorirem as ruas e onde entrei no museu de arte contemporânea. Extremamente contemporâneo e talvez um pouco nu demais...Nesse dia ainda atravessei a ponte de Sidney a pé e vi mais uma perspectiva de todo aquele cenário cinematográfico.Passeio romântico de barco até uma das praias da costa onde fui descobrir um treking pela falésia, ao longo de um mar picado, envolto no mais profundo aroma a flores silvestres.No regresso, uma vista deslumbrante de toda a cidade que me recebeu pouco tempo mas que, com a sua simplicidade me consegui mostrar muito.

sábado, 8 de Setembro de 2007

"Aos bocados"

Os olhos enchiam-se de lágrimas. Todo o seu corpo falava.
Era uma história, das passadas, mas que vivia entre nós com a força dos que vivem.
Os meus membros pediam relaxe mas o meu coração cortava-lhes os movimentos. Aquele era para perpetuar, para não perder um pormenor. Aquele era um momento filho único.
Nada ali era eu, nada de mim tinha importância ou lugar. Tudo era ela e tudo, era muito…
Enchia, perfurava, pregava-me mais ainda a uma cadeira velha, de sentar agreste.
Ali também não havia curva. Tudo era o pico, o clímax e a facada final era toda a história.
Este episódio voltou a repetir-se umas poucas vezes e todas elas falavam de Timor durante e pós invasão indonésia.
Chorámos juntas, principalmente as vitórias.
Um ser com coragem de homem e inteligência de mulher. Lembrou-se do mais improvável nos segundos mais aterradores e salvou vidas a cantar. De megafone num braço e a solidão destemida no outro, cavalgou território inimigo adentro para resgatar gente do povo seu e venceu…
Diz que nunca foi sozinha, que nunca tomou as rédeas que a Deus pertencem e que por isso mesmo nunca falhou um paço só.
Não se vêem limites nos seus olhos nem na vista do alto da montanha onde cavou a sua casa. Lindo, o lugar inspira o mais rochoso e torna bonita Dili que nua e fria, lá em baixo, intimida e continua conspirante.
A sua memória foi ferrada com atrocidades e essa, -la a ela e a um povo sofredor que continua a repetir falhanços, vinganças e a colher restolho.
Não pude deixar de tomar as dores e lágrimas de histórias fora do meu alcance, que me abriram os olhos para uma realidade que preferia nunca ter conhecido…se ela não existisse.

Mas quando abafo os soluços meus e me envergonho da ridícula desproporção que têm, vejo o seu rosto iluminado, de olhos brilhantes, num misto de águas do mar e do céu; de choro e de esperança; de revolta e de uma nova ideia para salvar só mais um!
E já salvou… A mim!





Fim da estada!

Na solidão de 7 horas de espera, sentada no pavoroso aeroporto de Darwin, realizo que Timor acabou e faço considerações, a observar a empregada do café manusear instrumentos que preparam sandes de presunto e outras grosserias alimentares.
O sonho do tempo tem muito mais tempo que o próprio tempo. Tudo o que se projectou e planeou foi cumprido excedendo expectativas, mas sentada nesta mesa companheira, não me lembro de lá ter estado mais de três dias.
Felizmente, o tempo volta a assumir o seu carácter vagaroso pois acabo de entrar no intemporal mundo das memórias. Então, sossego na certeza de ser eu a ter a chave dessa porta e de poder escancara-la a meu belo prazer...quando tiver tempo!
Foram dias mágicos que se desenrolavam em fases diferentes do meu limitado entendimento. Este é um país complexo...
Dias que me ensinaram a ultrapassar medos e desconfianças, sabendo procurar, no ambiente em que estou, a tranquilidade.
Dias que me levaram à naturalidade dos séculos atrás e a aprender que com pouco se faz manjar...Já dizia a minha Avó.
Fui respirar à montanha, provar arroz com vegetais indecifráveis, conhecer sementes e folhas curandeiras...
Raízes para a tosse e gargantas roucas foram as que mais me atraíram, saindo dos meus bolsos dicas e gatafunhos de receitas impossíveis, em papelinhos manchados por seiva e mel da serra.
Vivi a pacata delícia do campo...
Vi ser produzido o que comia, ferver a água do copo e aprendi a manusear baldes para tornar o banho, o mais confortável possível.
Andei de pés poeirentos que nunca sabiam quando calçar e descalçar.
Tomei a responsabilidade de ensinar Português e adaptar-me a cabeças que navegam com outros mapas, sugando tudo o que queremos dizer e o que não queríamos ter dito. Estão ávidos de saber e a novidade é agua num ralo.

Passei horas a ler, escrever, rezar e foram esses momentos que me motivaram mais!Assisti ao por-do-sol de uma caixa aberta a caminho das profundezas da ilha e dormi, literalmente, no meio do nada, em cabanas de telhados feitos pelo "Sexta-Feira" que, amigavelmente, deixavam vislumbrar os brilhos da noite.
Estradas feitas pelos primeiros colones serpenteiam ao de leve, não querendo incomodar a serenidade montanhosa que aconchega casinhas de palha amorosas, comoventes...

Desci 'a cidade poucas vezes mas foram sempre aproveitadas ao segundo!
Escreve mail, tira foto, sobe ao Cristo, pés de dança, janta fora, anseia por subir...
Assisti a festas locais onde se matam búfalos e porcos para manjares surreais, vesti-me a rigor e cantei em tetun...
Percebo que estou com uma necessidade enorme de assimilar muito mais que vivi.
Desculpem se o texto se torna maçador por ser escrito gota a gota mas 'e assim, dois dias depois da partida, que me lembro de Timor...
As fotos, depois..

Dare

Dias de espera! Mana Lu não atende e eu a viver a maior das ansiedades.
E agora?! Vim para Timor para ficar um mês e o trabalho, que supostamente iria fazer, não me atende.
Á minha frente um mar imenso, picado. Um horizonte volumoso, timbrado por silhuetas de crianças que brincam no primeiro plano e que gozam cada segundo do tempo que têm. Um mar imenso, picado mas que para mim só tem 500m de largo. Não saio porque não se pode, não fico porque não estou a conseguir aproveitar os segundos que a mim me deram.


Estou na proa de um barco numa noite de lua nova. A sensação de um vento fresco na cara, de um cheiro a maresia, um espaço imenso em redor que os olhos pedem para ver mas onde não há pinguinho de luz que faça vislumbrar o que quer que seja.
O êxtase máximo acontece quando, de boleia com o motorista do Pedro, dou uma voltinha de recados.
Sr. José. Mas que encanto de pessoa e que lufada poder ver o supermercado e a escola.
Estou quase a sufocar quando toca o telefone.
Querida! Venha sim. Vou busca-la ao cruzamento do mercado.

Ao entrar naquele carro Timor mudou de cor. Deixou de me incomodar, até mesmo de me meter medo. Os olhares intimidantes clarearam e voltei a mim, que já tanto precisava.
Demos muitas voltas á cidade em busca de precisos e visitas a casas conhecidas. Todos me falavam e sorriam e cumprimentavam como a própria Mana Lu fizera ao me ver chegar: com o abraço de quem nunca se esqueceu quem eu era.
Montanha a cima, a estrada deixa o alcatrão e assume o seu lado mais destemido. Precipícios e pontes de areia eram quase beijados com a astúcia do Mao Toy e nisto, embebida em novidade e entusiasmo, cheguei a Dare com um sorriso patético de orelha a orelha.


Mana Lu é uma senhora timorense de 46 anos que fundou um Instituto Secular misto, (ordem religiosa de homens e mulheres consagrados), o ISMAIK.
Aos doze anos já sabia que queria trabalhar na “messe do Senhor” e em 75, ano da invasão indonésia, esteve á frente de uma paróquia de 3500 fiéis com a firmeza dos seus 14 anos. Dizia ela não querer ficar a assistir Cristãos converterem-se ao islamismo.

Quis tornar-se freira mas muitos, inclusive o bispo, influenciaram-na a criar a sua própria comunidade. Ela era uma mulher cheia de sonhos mas, principalmente, muita iniciativa e acção. Achavam que Timor estava á espera de pessoas como ela, que liderassem o bem.
Com algumas seguidoras começou por ir visitar muitas aldeias perdidas, levando comida e consolo.
Durante a ocupação indonésia socorreu muitos refugiados em território inimigo e passou muitos perigos em prole de quem mais precisava.
Hoje tem 13 casas espalhadas por toda a ilha.
Duas casas de doentes e deficientes. Uma clínica médica em Dili e casas de crianças abandonadas ou com problemas familiares que também apoiam a comunidade da zona.

Todas as casas têm a sua própria horta e produzem tudo o que precisam para se alimentarem e ainda vendem algum sobejo.
Para além de socorrer as necessidades mais básicas da extrema pobreza, Mana Lu não acredita que sem formação esta ajuda sirva para alguma coisa. Diz que não quer criar dependentes e que Timor deve se libertar rapidamente da ajuda de “mão beijada”.

Uma mulher cheia de visão e inteligência aposta numa formação cuidada dos jovens e dos próprios membros do instituto.
Saídos do liceu passam uma temporada de 2 anos em Dare a aprender desde as lições mais básicas de higiene e comportamento, passando pela a aprendizagem de vários ofícios que lhes possam ser emprego mais tarde, como também uma formação moral e espiritual. Se os jovens decidem ir para a faculdade, o instituto paga (como pode) e no final, decidida a vocação, continuam a apoiar o instituto com parte do ordenado ou entrando no ISMAIK.
Eu estou a dar aulas de Português a jovens dos 15 aos 27 e ensino cantigas e jogos aos mais pequenos.



previa dias felizes mas nunca se imagina... Acordo todos os dias com o nascer do sol a pintar riscas berrantes na parede do meu quarto e com cantares a muitas vozes vindos da capela.

Juntam-se as comadres na cozinha e perdemos horas a rir do pouco que há em comum nos vocabulários. Gargalhadas livres e de um sabor que enche a alma.
Um bolo acabadinho de sair da lenha.
A professora é a primeira a provar e todas esperam a reacção… Palmas e mais gargalhadas se soltam em coro com o meu “hummmm” teatral! De olhos fechados e boca cheia, saboreio realmente.
A pequena nina, enroscada nas minhas pernas, parece gostar de mim. Trago novidades e paciência. A pobrezinha é única na sua idade e aprendeu a brincar sozinha. Não deixa de se divertir mas quando estamos juntas é bem melhor…para as duas.
Os seus 2 anos e meio de pezinhos calejados lembram me a minha princesa Lulu. Dou á Nina o tempo que não lhe posso dar a ela mas aprendo a ser criança e a ver o lado mais giro das coisas…mais tarde iremo-nos divertir imenso!!

Cabelos no ar, olhos enorme, aceita a atenção que lhe dão sem chorar e, sentadinhas nos troncos á porta da cozinha, separamos os bagos de arroz um a um.
Trabalho minucioso, encorajado pelo por do sol e cantigas a mil e uma vozes. A passarada voa tentando ganhar o seu tostão de arroz e a Nina trata de os afugentar, correndo a passinhos firmes, levantando penas, pó e risos.
Acompanho a Mana Lu nas visitas ás casas enfiadas nos mais ermos caminhos e vejo Timor a fundo…

São dias que terei de explicar melhor...

quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

Primeira Página...

O meu coração batia. Batia desalmado. De tal maneira que o cansaço de não ter dormido na noite anterior não conseguia fechar-me os olhos.
Uma das razões poderá ter sido o facto de viajar num avião de 20 lugares, de hélices roucas e ensurdecedoras. Mas por muito mais, era arrebatado o meu peito com rajadas furiosas de emoção.
Do alto, Timor.
Pequeno, inofensivo, escondido entre floresta e montanha… desconhecido.
Vieram-me memórias turvas, de imagens que correram mundo para gritar á boca cheia que esta terra existia, que estava a sofrer, que queria viver.
No aeroporto, algumas horas de espera até que a Joana nos viesse buscar. Desencontros… Mas logo encontrámos companhia que amolecesse o ambiente. Policias do Gambia, Nigéria, Filipinas. Deram pasteis, muita conversa e até nos emprestaram o telemóvel! Há sempre alguém…
Dili é tremendo. Um misto de muito feio, tons de cinzento e pó, com uma beleza quase mística, energética e banhada por um inatingível mar azul. Num jeep dos grandes fui desbravando aquelas ruas com olhos que comem, que não deixam nada…Tudo me era estranho, infiel. Não conseguia arranjar posição no banco da frente, não havia conversa de boas vindas que cortasse a ligação directa que fiz entre mim e a tensão que electrificava aquela estrada.
Os mercados atulhados de barracas e gente, os acampamentos de refugiados junto ás igrejas e edifícios mais frequentados, a quantidade de carros militares e de forças de paz, homens fardados, brancos, imponentes, os olhares desconhecidos ao código que trago, helicópteros, casas incendiadas, ruínas, desertos… O ar condicionado do carro que não me deixava sentir o mesmo calor que eles, a mesma poeira, o mesmo Timor.

Fui ficando em contemplação durante as horas e dias que se seguiram mas gradualmente mais tranquila.

Em Dili estávamos instaladas em casa de jornalista. Muitas chamadas, muitas “fontes”, muitas cenas que davam filme. A morada de um media é sempre um ponto de tensão onde se sabem as notícias em primeira-mão e onde chovem pedras de quem quer incomodar.
Ao mesmo tempo, aqui não há perigo. Há focos de tensão mas é possível levar uma vida sem muita atribulação.
No hotel Timor discutem-se, aristocraticamente os problemas, ao sabor de um chá e torradas e muitas certezas. Senti-me qual colonial, segura, falando ás belíssimas refeições sobre as pedradas que se deram na noite passada.
E o Carlos da Maia também lá estava…
(Apesar da ironia existe um panorama.)
O país está a passar uma séria crise vinda de uma democracia desfraldada e carente e de uma história dura que formou gerações e que continua a dar frutos do Éden.
Ramos Horta decidiu, constitucionalmente, que quem formará o 4ºGoverno desta jovem nação será, não o partido com mais deputados mas sim, a coligação com mais deputados.
A Fretilin, partido que se vê no direito que seja respeitado o primeiro termo da lei e não o segundo, (esse que diz: (…) ou a coligação mais votada (…)), sente-se o troiano desta historia, perde as estribeiras e esquece-se que um dos elementos fundamentais de uma democracia é haver mais do que uma hipótese para o poder.
Montaram-se em camiões e dirigiram-se a Dili para assegurar um descontentamento bem agitado.
Desta vez a capital não foi o grande alvo. Apesar da alfândega ter sido incendiada e com ela muitos documentos das finanças do país, entradas e saídas de mercadorias e outros assuntos que, não vá o diabo tecê-las, poderiam comprometer alguém…

Quem continua a sofrer desumanamente são alguns distritos do interior. Muitas casas foram incendiadas obrigando 10 000 pessoas, montanha a cima, refugiarem-se em grutas sem água nem outros básicos. Maus-tratos e violações, atrocidades que o ser humano não é capaz de conceber sem a ajuda de muita droga, álcool e demónios mil… Requintes de malvadez nos mesmos homens que gritam para que se faça justiça. Também eles sofreram quando o cenário era o inverso.
É tão difícil encontrar o virtuoso bom perder assim como solução para esse, que é fruto de uma formação á base da espada e parede.
Um povo que traz as marcas da violência indonésia. Jovens sem emprego nem auto estima que, para possuírem algum sentimento de pertença, se juntam a gangs de artes marciais politizados, que não têm medo de matar nem de morrer. Quem sofre é o povo analfabeto, incapaz. De pobreza, de violência, de medo.

Como todas as opiniões, esta é mais uma versão da história. Serei eu uma imprudente ao escreve-la aqui? Mesmo tendo inteligência suficiente para admitir a minha ignorância no assunto? Será que o sensacionalismo vive de emotivas como eu, a quem lhes foi pouco ferida a sensibilidade e que, por isso mesmo se continuam a chocar e a chorar com o sofrimento alheio?
Talvez me julguem com razão mas no outro lado da moeda está essa acomodação do sofrimento do mundo a um sofá com hora para acabar.
Venho com mil histórias de esperança para contar. Histórias que tenho testemunhado nesse oásis montanhoso que tive a Graça de conhecer, onde a vida sobe átona de água com todas as suas forças.
Mas hoje não consigo virar a página.

sábado, 4 de Agosto de 2007

Aii Timor!!

Caros todos,

Timor começou por me prometer um mês.
Ainda pouco passou da semana e a estadia já se alargou, tamanhos são os encantos desta ilha...
Acontece que hoje desci á cidade por força maior. A oportunidade instalou-me na montanha onde, sem luz, me é impossível navegar por esses infindáveis caminhos da modernidade.
Deixo memórias passadas na Tailândia e um cheirinho a mar.
Mais notícias virão mas talvez lá para o fim do mês.

O vosso General.

domingo, 29 de Julho de 2007

Tailandia de amarelo

Cheguei á Tailândia já de noite. A cidade, na sua insónia diária, apresentou-se desconfiada e cheia de códigos que não reconheci mas que me atraíram.
Uma cidade que me pareceu muito independente e que segue certos rituais mais ou menos tradicionais. Aqueles que têm vida nas cidades nocturnas, onde o dia e a noite perdem carácter e dão lugar um ao outro.Do aeroporto, um Shuttle com um grupo de Israelitas que conheci no avião. Pareceu-me tudo muito caro e resolvi experimentar os transportes públicos. Mau resultado: Não perceberam para onde eu queria ir, eu não sabia para onde queria ir e deixaram-me no meio de uma via rápida ás duas da manhã. Nesse panorama estava uma rapariga que fez parar um carro. Julgando ser um táxi resolvi partilhar. Á falta de comunicação, a acção é o melhor entendimento e nisto, já dentro do carro, percebo que quem estava ao volante era o seu marido. Com a lata com que entrei, saí… Comigo saiu também o jovem casal e variados mapas. Muita conversa, muitos loopings á cidade cartografada, acabei dentro do carro, desta vez a convite, a ser conduzida, não sabia bem para onde. - Very far. - Diziam em coro.
As horas passavam das 4 quando avistei o brasão português e saudei as cinco quinas como nunca antes.
O portão abriu-se para uma casa imponente e os meus anjinhos Thai não podiam crer que aquela esfarrapada, cheia de malas, fosse destinar ali: Na embaixada portuguesa.
E lá estava ela, junto a porta principal, aflita mas com um sorriso que se desfez em simpatias mal me viu entrar. A tia Pitucha. Mãe do querido amigo Duarte, verdadeira anfitriã, recebeu-nos como há muito não o éramos e apresentou-nos as lides diplomáticas. O Sr. Embaixador, o tio António, mostrou-nos um primeiro sorriso contagiante e pôs-nos a par da situação que se vive hoje em dia na Tailândia. Toda a influência da família real num povo que se aproxima cada vez mais do mundo ocidental, os últimos acontecimentos e alguns códigos engraçados que nos convinha saber.
O amarelo é a cor real. Cada dia da semana tem uma cor e o Rei nasceu numa segunda feira, dia amarelo. Tudo se veste de amarelo para homenagear o rei. Desde pessoas, monumentos e ate mesmo os táxis. Mas para mim:O que seria do mau gosto se não fosse o amarelo. Enfim... Não convém criticar o Rei em publico pois este não é só o representante da nação mas também um deus para os seus súbditos. A indumentária nas visitas a qualquer templo ou palácio roça a gola alta e as meias ate ao joelho e na eventualidade de nos cruzarmos com algum membro da família real, joelho em terra será do agrado geral…
A casa tem um enorme jardim e está situada mesmo á beirinha do rio que atravessa Bangkok e que funciona como uma autêntica auto-estrada de pessoas e mercadorias. Uma oferta do Rei Thai a Portugal, a casa tem uma enorme escadaria que dá para a sala, estonteantemente iluminada. Janelões com bandeiras em forma de meia-lua, de gomos azuis, abrem as portadas e quase deixam entrar as ramadas frescas de flores tailandesas que crescem no jardim. O chão de tábua corrida não evita o ranger que impõe respeito ao andar e as maravilhas em telas, que decoram toda a casa, requerem tempo e conhecimento.



Jantávamos numa camilha junto á janela onde daí, entre a passagem de típicos barcos iluminados e um copo de vinho se viajava pelas memórias do Sr. Embaixador. Casal encantador que não perdeu oportunidade em nos fazer sentir o melhor possível, foi uma companhia de que recordo com uma imensa saudade. O corpo da chancelaria foi, também, incansável a resolver-nos os maiores e os mais pequenos contratempos. O Kith, o Nuno e todos os porteiros que nos abriram aquele portão. O pobre Kith andava sempre a tratar das minhas faltas de atenção e até conseguiu recuperar o valioso caderno de escritos que me esqueci numa estação de camionetas perdida no breu. Com ele, visitámos o palácio, o templo do Buda deitado. Um encanto de deixar os olhos vidrados. Formas estranhas, iluminadas pelo muito ouro, estátuas que riem, almas que rezam e que tornam tudo aquilo verdadeiro. Ritos que evocam tempos passados e ajudas certas. Uma experiência que mexeu com todos os sentidos.


Antes de partir fomos a Samed passar três dias. Uma das muitas ilhas que tem a Tailândia.
Ficou a três horas de camioneta onde deu tempo para passarem três filmes de terror em tailandês. Realmente a viagem foi um susto e demorou a passar…
A ilha chegou de noite e no meio de muita escuridão lá encontramos boa estalagem para pernoitar.
A esplanada era na areia e as bebidas iam lá dar. Comecei uma dieta feroz por isso não passaram de muitas águas com limão acompanhadas por três folhinhas de alface e muitas corridas de manhã. Soube maravilhosamente bem e cheguei a Bangkok com menos um quilo e meio. Acabada a saborosa estada apanhei o avião para Kuala Lumpur onde a Rita já se tinha instalado e me esperava há dois dias.

Com outros olhos

Quem parte no entusiasmo de conhecer o mundo enche-se de ilusões. Tem nos olhos imagens, paragens e vidas que nunca viu mas que sabe que, de uma ou outra cor, virão. Imaginam-se rostos, maravilhas naturais e os próprios ícones universais que invadem as montras das agências de viagens. Não se pensa noutra coisa.
Viciado, o cérebro atinge velocidade tal que impede até a mente mais tranquila de gozar as horas que Deus, na sua perfeita criação, reservou para o descanso.
O que fica são despedidas saudosas mas apressadas, pois não há tempo a perder, não se pode esperar… “Qual quer dia não há…e depois?!?”
Agora imaginem que, por vielas do destino, se regressa a casa para passar 20 dias.
Precisamente no meio do percurso estudado.
Suponhamos... Um casamento de um irmão ou qualquer outra incontornável, implacável, apetecível, razão.
Chega a hora de partir e quem parte já não parte, Reparte.
Reparte o olhar que outrora partia entre um entusiasmado com o muito que está para vir e a delicia e espanto por esse lugar que é o seu mas que nunca tinha sido merecedor da devida atenção.
Portugal encantou-me e hoje, já longe, não consigo deixar de repartir a pouca capacidade que tenho para dar devidos valores, entre todo o mundo e o mundo que é Portugal.


Saio a meio da manhã para ir tomar o, do costume, cafezinho no Értilas. A senhora do quiosque parece ter visto uma visão. Simpática e entusiasmada pergunta-me se por acaso não teria morrido. “Então?? Nunca mais a vi! Ainda a confundi umas vezes com a sua irmã mas ás tantas, percebi que não andava por cá.” Os meus pais seguem as vidas e eu, meia desamparada, sem carteira e sem nada para pôr numa, tento criar uma rotina nesse instante. Á falta de telemóvel e de tempo que me prendesse, passei uma tarde inteira na esplanada da Graça a observar. Casalinhos de namorados: Check! Homens espadaúdos a passearem o cão: Check! Pessoas de sexo indefinido, sozinhas, com ar de muiiito alternativo, a lerem banda desenhada: Check!



Meninas de cabelo ao vento a fingirem um ar pensativo enquanto vêm a vista numa pose estudada no corrimão: Check!
Turistas embriagados de beleza, belos pares embriagados de tinto.
Também, entre outros menos (a)típicos, uma vista realmente encantadora.
Uma igreja branca imaculada que dá horas, aquelas que recebo sem dar conta…

Desço a Graça até ao castelo e, no carro dos meus sonhos, vejo pela primeira vez muitas das casas e recantos dos bairros mais bonitos do mundo. O pôr-do-sol relembra-me que finalmente tenho um compromisso. Jantarada e noite de bairro seguida sabe-se lá de quê. Os amigos são os mesmos e com as mesmas razões pelas quais os escolhi. Agora mais animados que nunca pois os exames acabaram e a cidade dá-lhes tudo. Dizem que o Tamariz perdeu o seu encanto e muitos outros acabaram mas abriu uma esplanada nova no museu de Arte Antiga e a querida Mesa de Frades, sempre no seu melhor, devolve-me os fados que deixei. Passinhos de dança no Enclave e o Jamaica nunca deixa que uma noite acabe tarde.

Foi difícil recuperar da rouquidão crónica em que fiquei mas valeu a pena...
Visitei as Avós que, de maneiras diferentes, me dão sempre motivação e um sorriso cheio de confiança.
Vi o meu querido irmão e a sua princesa, casar. Diria que, mais felizes do que nunca, foram verdadeiros anfitriões de um dos mais divertidos casamentos da historia. As almoçaradas possíveis e muitos amigos que ficaram por visitar foram fazendo os meus dias e a frase que sempre me irritou sair das bocas mais viajadas é-me muitas vezes perguntada: “ Lisboa está igualzinha?”. Não sei se esta diferente para todos ou se é só para mim mas tenho visto coisas novas ou com outros olhos...
Pela primeira vez reparei nos viajantes. Meti conversa e descobri que Lisboa encanta a quem lá passa.
Comparo cidades e ambientes. Cheiro, o que será para outros, novidade. Tento colocar Lisboa no meio de uma análise detalhada. Imparcial, quanto o possível, descubro que Lisboa não pode ser comparada. Primeiro porque tenho eu ainda muito para ver e nem que vivesse mais uma centena de anos do que o previsto, teria conhecimento para realizar tal análise. Segundo porque Lisboa não tem, de facto, comparação. A contradição é propositada e não pretende deixar mais do que a facílima, simplicíssima conclusão: Lisboa é Única.

sexta-feira, 27 de Julho de 2007

O regresso

Há quem pense que este blog foi esquecido, encolheu até deixar de ser, morreu. Está longe da verdade e esta, está mais perto de uma ligeira perca de força, descanso, falta de inspiração.
De facto esta rota já deu muitas voltas e a ultima foi um pequenos desvio até Portugal a quando o casamento do meu querido irmão e de sua princesa.
A ansiedade das duas ultimas semanas, antes da chegada a Portugal, foi de tal forma que me perdi na amizade a este blog, ficando por contar a passagem pela Tailândia e as fabulosas paragens da Malásia.
Mil encontros que se deram, ilhas e sois que nos deram, muito mais que se perdera...
Tentarei, por enorme gosto, dar o que não dei.

Um general cheio de pica...

sexta-feira, 8 de Junho de 2007

Europa Latina

E não é que estou do outro lado do mundo??
Derrepende, passei Portugal e vim aterrar um quarto de mundo depois, em Buenos Aires!!
Estou na Argentina pois o oficio a sim o demanda. Está a aproximar-se esse, que tem vindo a ganhar importância no meu top de dias preferidos, o dia de Portugal. Muitas comemorações e protocolo, entre eles, fados para matar saudades. Aos imigrantes e principlamente a mim que não cantava a mais de três meses.

Os fados correram bem e a cidade teve tempo para se mostrar. A Europa latina mora aqui. Cidade sofisticada, de uma beleza estética e cultural que seduz. Eu, estou apaixonada..

Primeiro dia, ainda sozinha, deixei que os olhos levassem os pés e andei durante quase metade do dia.
Passei por grandes avenidas, riquíssimas em arquitectura francesa e espanhola dos séculos anteriores, entre eles, teatros, embaixadas, cafés (que em tempos foram refúgio clandestino de vanguardistas e inspiração no expressar).
A famosa casa rosada, de onde discursou Evita Peron, encorajando o povo Argentino.
A praça de Maio, para onde deita a Casa Rosada e o congresso. Deste ultimo sai o presidente eleito. No centro, um monumento comemora a revolução de 1810, quando a Argentina se liberta do império espanhol pelas mãos valentes do general San Matin. Na Catedral (que também deita para a praça), estão os restos mortais deste combatente, considerado herói nacional. Foi fundada um ordem para preservar a sua memoria e dois guardas escoltam o túmulo desde a data da sua morte.
Muitos jardins e limpas ruas fazem do passeio, uma delícia.
Nos dias seguintes fomos ao famoso bairro La Boca onde fica El Caminito. Uma zona onde a faca na liga ainda está afiada e se pode assistir ao tango do mais arrebatador. Hoje em dia e trata-se de uma atracção turística mas a vontade com que tocam e dançam o tango pelas ruas, não pode ser só teatro. Fica numa zona portuária e as casas são construídas com materiais variados, vindos de outros portos. As fachadas são de todas as cores, pintadas com as latas de tinta dos barcos, (que nem sempre chegavam para tudo).
Dançámos e comemos da melhor carne que no mundo. Carlos Gardel é o "Rei" e quem saiba duas ou três quadras tem serão para a tarde toda.
Á noite, entrámos num dos refúgios de tango para argentinos. O lugar onde não se espera espetáculo mas musica, da verdadeira. Foi o que aconteceu. Inspirador, encantador, quase fado...


Amanha parto para o Chile, comemorar mais dias de Portugal.

Mal posso esperar por Novembro em que voltarei a passear por estas ruas, desta vez, de mochila e sandoca mista...

sexta-feira, 1 de Junho de 2007

Historias de um Laos

A caminho de Luang Prabang.

De cabeça fora da janela, não consigo tirar de admiração as montanhas, senhoras muitas, de infinita dimensão. Planos e planos se sobrepõem sendo o sol a definir quem se abeira á frente e quem é deixado para o magnifico pano de fundo. O rio surge de repente e o vento húmido deixa-me completamente peganhenta e anestesiada. Comigo, nesta janela em movimento, também uma menina, não mais de dez anos, se espanta com este país que é o seu.
Os campos, que as palmeiras do caminho deixam ver, são muito verdes e muitos deles organizados em culturas variadas. E as grandes sombras não nos deixam. As da frente movem-se mais depressa e as de traz deixam-se ficar a preencher esse fundo ao longe, inacessível, quase apagado, quase fumo.
E por do sol, por fim, mostra todo o potencial dos reflexos da natureza e a sua tradução em mil e uma cores sem nome.

E fez-se noite e cada vez mais alto, mais perto e eu não dormia…não podia! E Tu estás comigo, viajas nestes caminhos que são os Teus, que me mostras. E estamos mais alto, para lá do horizonte, mais e mais… Parece que crescem. Não crescem? Não acabam e não deixam nunca de nos rodear em abraços lentos, tão lentos como o andar da nossa carrinha e subimos mais alto ainda. Ao longe são fantasia e ao perto, precipício verde, a pique, sem volta…



Luang Prabang


Cidade de pescadores de rio, Luang Prabang é património mundial e a segunda maior do Laos (mas é tão pequenina). A ex. Colónia francesa exibe no centro, ruas com casas coloniais muito bem arranjadas, com lindos alpendres a deitar para o rio e a transbordar de árvores tropicais.
Muitos pescadores fazem dos barcos a sua casa e tornam o rio mais vivo do que já é. È a grande actividade desta cidade que acompanha o rio no seu trajecto e correr.
E de repente, templos budistas, enormes, dourados e imponentes.
É uma cidade que reza e onde se sente uma mística desconhecida mas que nos deixa à vontade.
Monges são muitos, daqueles cor de laranja berrante. Andam pelas ruas, serenos. Nada comem depois do meio-dia, rezam todos juntos e ao fim da tarde ouvem-se cantar num tom muito grave.
São realmente seres que fascinam pela sua simplicidade e calma.
Há muitos com menos de 25 anos pois começam em criança e podem decidir se o querem ser para toda a vida ou não. Fazem votos de castidade, pobreza e oração e sente-se a fidelidade á crença e aos votos. De uma doçura disponível, sempre que nos dirigimos a eles, respondem com sorrisos mas poucos olhares, visto sermos duas jeitosas raparigas. Visitámos alguns dos templos e espantamo-nos com a magnífica vista do cimo da colina. Demos o passeio das cascatas gigantes. Um esforçado traking ate ao lugar onde tudo cai e piscinas naturais, de um azul que não existe. Tomamos muitos pequenos-almoços à beira rio, e cirandamos no night market que se estende pelas ruas do centro. Muita cor, muita tradição, muito regateio. Não dispensamos uma cervejinha no spot mais badalado e viajamos, com o inglês das mil e uma aventuras, pelos lugares mais recônditos do planeta.
Foi uma das cidades que mais gostei, que me ofereceu mais tranquilidade e paz e que me faz querer voltar ao Laos.

Luang Prabang vale a pena.
A pescaria


Nesse dia acordamos cedinho. Queríamos assistir às oferendas de alimentos aos monges mas tinha acabado há meia hora atrás. Sentamo-nos para tomar o pequeno-almoço junto ao rio. E lá estavam eles mais uma vez. Cada um com o seu barquinho, cada um com o seu entusiasmo para o começo desse dia. Conversavam entre si enquanto desembaraçavam as redes e em menos de nada já lá estava eu a impingir-me para a pescaria. Todos me atiravam para o barco do vizinho e entre muitos risos e pouco entendimento (da minha parte) esqueceram-se da minha presença, continuando o ofício. Mas quando estava eu mais longe daquele lugar, oiço perguntar: Sabes nadar?
E disparando a resposta, salto para o barco do meu, mais recente, companheiro.
Fez-me as duas ou três perguntas que sabia e entrámos em silêncio profundo, compenetrado, inquebrável.
A casquinha de noz deixou uma bóia num dos lados do rio e atravessou até à outra margem, deixando atrás de si metros e metros de rede, fortuna da sua arte.
Esta estendida, desligou-se o motor e entrámos na viagem onde a corrente será senhora eternamente. E deslizámos, levados na dança do acaso, entre brisas e respirações, em gestos contidos num vácuo para que nada corresse mal. Só o cantar do rio preenche aquela cena, canta bem, canta com o barco, canta de improviso…
Let’s go – Grita o pescador como se desse instruções a cerca do meu papel. Mas eu só tinha de assistir e não virar o barco! Mesmo assim, senti-me totalmente empolgada com o meu “não papel” a desempenhar.
As redes eram puxadas com uma segura esperança, sem hesitações nem pressas. E mais um metro, outro e eram arrancados ao rio como se ele não o quisesse, fazia pressão. Mas o meu mestre, fiel ao sei propósito não saía vencido daquela disputa.
Dois ramos e um copo de plástico foram a nossa sorte. Talvez tenha sido eu, o seu azar mas voltámos à margem sem quebrar o recheado silêncio.
E o que ficou daquela pescaria, e no final de todo o aparente fracasso, foi a emoção de assistir à maravilhosa cena do pescador em plena contemplação desse rio, que todos os dias lá está, que nunca se repete…

terça-feira, 29 de Maio de 2007

O Encanto

Cada passo que dou teria uma palavra. Uma para aquele passo. ฺ Única, tradutora, irrepetível. Cada cara que vejo tem um nome! Porque é que não posso dar uma palavra a cada passo? Estarei eu a utilizar adjectivos repetidos e vocês a pensar que estou a falar sempre dos mesmos sítios. Mas não! São todos tão diferentes! E como o são… Terei de admitir que não serpenteio na maravilha que Eça nos deixou e esse facto desmotiva a tentativa. Esta impossibilidade torna quase impensável o desafio de descrever o Laos mas não consinto que percam um cheirinho que seja desta inacreditável visão. Deslumbrante. Intacto. Espirituoso. Inocente. Maravilhoso…De infinita beleza, onde o Homem parece não ter poisado, o Laos é o país mais selvagem onde já estive e o mais incrível da Ásia que conheci. A porta de entrada foi as “Quatro Mil Ilhas” formadas pelo delta do Mekong onde o tempo parou e tudo tem a pureza do manufacturado. Instaladas num bungalow em cima do rio, estas ilhas deixam-nos apenas com os bens essenciais para que a sua dádiva esteja sempre no plano primeiro da nossa atenção: A fabulosa paisagem. A electricidade só vive até ás 10 da noite e são as velas que nos ajudam a encontrar o trilho de casa. Todas as casas são feitas de madeira, colmo e folha de bananeira. As barcaças são escavadas em troncos e apenas dois ou três caminhos foram abertos para dar entrada aos bungalows que se debruçam no rio. Percorremos a ilha em bicicleta e fomos dar a uma imponente queda de água, uma de muitas que caem por todo o arquipélago. Todos os caminhos estão rodeados por palmeiras e muitas árvores de fruto. Com o rio mesmo á beirinha pudemos dar belas braçadas e esquecer que estamos num país sem costa. Fizemos boas conversas com viajantes variados. Encontrávamo-nos a hora da luz num bungalow qualquer e daí seguíamos para o único restaurante aberto até ás 11. Incrível a quantidade de pessoas que viajam e o espírito que se vive: O de uma simplicidade verdadeira. Todos se dão sem filtros nem preconceitos. Á primeira vista é sempre só mais um a viajar. Depois, há ou não empatia e conhecem-se histórias incríveis, diferentes, de mundos e contextos opostos onde se viaja mais do que o físico permite. 'E impossível estar sozinha. Há sempre quem fale, quem pergunte, quem convide. Os programas são sempre fruto do acaso e a vontade diz se ficamos mais uns dias ou se seguimos caminho. Sem compromissos nem fretes, passam-se horas e historias sem se saber o nome do narrador.
Portugueses ainda não, mas vou com a fisgada dos encontrar… Seguimos para Vang Vien. O primeiro contacto foi desastroso. Estávamos cansadas, cheias de km’s e debaixo de uma chuva agressiva. Mas ao acordar o encanto foi demasiado.
Uma vilazinha, perdida no meio da montanhas, que acompanha o correr do rio e que esconde inúmeros encantos. Alugámos as habituais bicicletas e demos o passeio que me encheu completamente. O rio está cercado por gigantescas montanhas, a pique, com escarpas e grandes árvores a nascerem das pedras. Pontes feitas de bambu levam-nos á outra margem e a incontáveis grutas. Entrámos em duas delas, o guia desapareceu e a luz foi a baixo segundos depois de se ter apagado a “luz ao fundo do túnel”. Os “grigris”, “chakschaks” e outros assustadores ruídos começaram nesse preciso momento e foi uma emoção pôr o pé na claridade. Andamos de câmara-de-ar numa gruta cheia de água, e acabamos o dia num kayak a descer os pequenos rápidos e a sermos puxadas para bares de madeira espalhados pelas margens com música aos gritos e slides para habilidades. O mais incrível destes dias foi o encontro com a e época das borboletas. Aos milhares, de todas as cores, feitios e tamanhos, são magníficas. Deixaram-me muitas vezes presa ao seu, quase animado, flutuar. Pousam nas margens em enormes grupos e á passagem do kayak levantam voo, instantâneas, simultâneas, enchendo o céu de uma paleta se cores berrantes. Envolvem-me e quase me fazem flutuar com elas.


As pessoas do Laos são um encanto. As teias do turismo pouco se desenvolveram e ainda se sente a espontaneidade inocente de quem vende e de quem serve. São sorrisos desinteressados, vivem por si e para agradar. Poucas vezes acertam com os pedidos e mesmo quando acertam pedem desculpas e muitos “obrigados”. São puros e divertidos, estando sempre dispostos a dar uma boleiazinha ou a esperar mais de meia hora depois do horário de fecho da Internet. Todos os lugares ganham encantos quando se convive com olhos que riem, pessoas que respondem, que se metem e intrometem sem maldade e que nos fazem sentir …bem.

Tenho o Laos na cabeça e uma vontade de o recriar mas não tenho a capacidade de o fazer viver desse lado com a cor que o vejo aqui... Façam-me um favor: Venham

Já estou em Luang Prabang mas essa terá direito a post.

quarta-feira, 23 de Maio de 2007

MC

Vinha-mos nós a chegar de um templo que morava a 70km da pequena cidade de Siem Reap quando a Rita grita: Carmo, á tua esquerda.Eram duas irmãs da ordem da Madre Teresa de Calcutá que se aventuravam pelos enredos de um mercado tipicamente asiático. Salto do ricchó em andamento deixando todos para trás, levando a certeza de que alguma coisa iria acontecer.Procurei-as e não as vi. Mais uma ruela, mais uma banca, “cheaper, cheaper” e lá estavam elas. De azul e branco, serenas, flutuando em passadas atarefadas e muito seguras…Inconfundíveis.Hello Sister. My name is Carmo and I would like to know if you have a work house here.Era-mos para partir nesse seguinte dia mas os planos mudaram. Receberam-me para trabalhar na casa, que é a única, de crianças órfãs e deficientes. Que casinha amorosa, tão bem arranjada e limpa. O amor das irmãs é comovente e a sua dedicação a cada um, como se fosse o único, um exemplo. Três senhoras locais ajudam na cozinha e nas tarefas com os miúdos. Eu dava banhos, as refeições e muitas brincadeiras. Entrei na cozinha para dar uma ajuda e acabei por formar o casamento perfeito com a cozinheira. Nunca falámos mas soubemos sempre o que fazer. Os olhares cúmplices de desagrado ou aprovação do meu desempenho eram suficientes e ficamos amigas.
Na minha bicicleta, lá ia eu como se dominasse a cidade, chegando mais uma vez a esta casa que, por mais que mude o país, não muda em nada. O mesmo acolhimento, tranquilidade e alegria que se tornaram para mim, características da ordem.Chegava á janela e já se ouviam os berros e o correr desaustinado, mas nesse dia havia novidade. A irmã superiora chamou-me e disse com o maior sorriso do mundo: Look Carmo, new baby. Tinha acabado de chegar, muito assustado, tão pequenino. Todos os outros empoleiravam-se pelo berço fora querendo dar as boas vindas ao novo amigo. Foi um dia diferente e cheio de esperança.
As cerimónias de Adoração foram vividas em família e pude partilhar desse que é momento único, incomparável, indispensável. Foi um recarregar dessa energia que move, que me faz ser mais. Os resultados viram-se e tudo correu melhor para á frente. Mais certeza do sentido destas milhas, mais tranquilidade na partida…Muitos sorrisos e festas á saída que teve de tudo um pouco. Freiras empoleiradas na mangueira do jardim para me darem uma sacada. Crianças em correrias excitadas a tentarem mais uma provocação e os risinhos da cozinheira, minha querida!
O Cambodja veio a revelar-se muito mais do que um país incrível e selvagem. Foi o encontro de vidas, a coincidência que não existe e o reafirmar os votos da partida. É mesmo isto que quero fazer, que ando á procura, que me realiza.

segunda-feira, 21 de Maio de 2007

O Selvagem Cambodja


As viagens de camioneta nestes países, diga-se de terceiro mundo, são surreais. Todas elas são diferentes não havendo a monotonia do percurso Lisboa-Algarve nem a certeza da chegada. Os horários são mentira, as estações, uma oficina/feira e primeiro que se saiba qual é o nosso autocarro, enfiamos a mala em 5 ou 6 poças de lama. No Cambodja foram sem duvida as mais impressionantes, perigosas, inacreditáveis e belas que fiz até hoje. Começa logo bem. Antes de pormos as malas já estão cinco marmanjos a empurrar o autocarro até que pegue. A carrinha envereda pela estrada de terra batida que une as duas principais cidades. Está em obras e as guinadas de destreza do volante, á passagem dos buracos e pedregulhos, não deixa ninguém encostar cabeça. Os campos arrozados a perder de vista, com palmeiras semeadas aqui e ali, quebram o ritmo da densa e impenetrável floresta. Os espelhos de água são tão grandes que cabe lá o céu inteiro. Fazem com que o sol tenha papel nos brilhos do mundo, cintilando todo o verde, azul e branco.Mais um buraco, solavanco, susto e irritação que me acordam do sonho dos arrozais. As catrapilas e os camiões lá estão a esburacar e a fazer desvios á estrada “mãe” e a nossa “judoca”, sem medos nem consciência, a acelerar nos buracos e a buzinar determinada.As casas construídas sobre estacas fazem lembrar um misto de Baywatch e a casa na árvore do amigo do Tom Saweyr. Não saem da beirinha da estrada com medo dos terríveis campos minados, deixando um “mundo” por explorar de segredos e aventura. Todas em madeira e telhados de colmo, utilizam o R/c como local social até que as chuvas venham ocupar o que por direito lhes pertence. Mas até lá muitas redes se estendem, as crianças brincam encardidas e não há um só elemento a invadir a paisagem que nunca se repete, nunca cansa, nunca acaba…

Ankor de bicicleta. A experiência. Tudo está limpo e arranjado, ou não fosse património da UNESCO. Mas mesmo assim senti um cuidado que agradou o pedalar. Uma estrada de alcatrão mal rematada á berma de terra batida e relva fresca, conhece todos os templos e leva-nos num percurso estudado. Pensámos ser azar apanhar a época das chuvas mas esta veio a revelar-se a maior de todas as sortes. O cheiro a terra molhada fez-me lembrar a mãe e o Gui, os canteiros de Paderne… Muito pouca gente e o verde, no seu maior esplendor, a realçar os “castanhos terra” dos majestosos centenários. Os templos surgem de repente, ao virar de uma curva, na mais densa vegetação. Caras de Buda sorriem ironicamente e estão por todo o lado. Árvores gigantes estão irremediavelmente entrelaçadas ás fachadas e ombreiras das janelas. Passagens estreitas, escadarias a pique muitos monges em oração. Ankor Wat ficou para o soberbo final. Debaixo de uma carga de água vi o sol se pôr e senti o eco frio do vazio e do desconhecido. No dia seguinte mais um templo. Desta vez a 70km da cidade e uma aventura de ricchó. O Jungle Temple dá jus ao nome e aparece-nos solitário, silencioso. Os muitos seres da natureza fazem a banda sonora do filme interpretado por um tal de Indiana Jones que percorre ruínas húmidas e sombrias e se aventura numa escalada vertiginosa pelos pedregulhos musgados e arrebatados pelo tempo e por esquecidas batalhas.As árvores são donas e senhoras, sendo preciso pedir licença á passagem de mais uma ala sem tecto nem nome.Voltei preenchida na memória de tão bela floresta que abriga tantas crenças, costumes, historias e guerras e que no final se deixa ficar, solene e serena, assumindo assim o seu derradeiro destino de atracção turística.O Cambodja é uma autêntica cave de segredos. Sente-se a história de um povo sofredor que continua a viver a terrível ressaca das guerras e massacres, esses que conseguiram estagnar e impedir a evolução. Mas mais uma vez há sorrisos, hospitalidade e uma vontade enorme em agradar. Ficam óptimas recordacoes de um país tão diferente, tão selvagem, tão encantador.

quarta-feira, 16 de Maio de 2007

Vietname Rio

Acordo naqueles dias em que preciso de segundos para perceber onde estou, vinda de um sonho não sei de onde. São sete da manhã e o embalar da camioneta devolve-me o sonho perdido. Esta dirige um tour que, para nós, tem como objectivo, simplesmente chegar ao Cambodja. Uma hora passada, embarcamos numa casquinha de noz que serpenteia no Delta do Mekong e que não nos escapa das visitas guiadas ás fabricas de doces de coco, ás provas dos licores de cobra e de muita fruta acompanhada com cânticos locais. A mesma volta que fizemos com as meninas de Xangai mas, como tudo na vida: “Same, same but different”. Cai uma carga de água que não esquecerei certamente.
A maior da minha vida, também a mais rápida a chegar. Aldeias flutuantes continuam o seu destino sem que a chuva lhes diga que chegou e os pequenos canais forrados de um verde muito verde impõem mais respeito.
Cenário, diria, assustador que logo me fez lembrar os filmes trágicos sobre grupos de turistas felizes. Já o caos instalado, ainda estão eles, com piadas e muitas fotos inúteis. O primeiro corajoso morre sempre primeiro e nunca sobram mais de dois ou três para se fazerem de vitimas á chegada dos heróis.
Mais um autocarro. Desta vez de 7 lugares com 10 pessoas e quatro horas de caminho. Viagem alucinante tanto pela fabulosa paisagem como pelas (des)habilidades do condutor. Chego, já bastante adaptada ao ombro da vietnamita vizinha, de seu nome Low. Carrega uma sacada de Jacas a inundar o ambiente, muitos sorrisos e um par de ancas que insistem comigo…
Uma noite perdida no mapa e mais uma barcaça lançada ao rio com o grupo de turistas felizes.
Um rio é sempre bonito mas quando escoltado por palmeiras, bananeiras e casas feitas de madeira, sobre estacas e telhados de colmo, torna-se a mais bela das manhãs. A quantidade de famílias que aqui vive
é incontável e adeuses e sorrisos são contagiantes.
Pode ser uma enorme emoção o cruzar caminho com uma barca de estranhos mas o pulsar aumenta quando há resposta. Baloiços na água vibram com aquela festa que durou o segundo da alegria. E o sol faz brilhar o musgo que se agarrou a toda a madeira tornando tudo isto num sonho…
É realmente uma viagem inesquecível. Primeiro: O gosto por todas as formas de deslocação aquática, incutido pelo meu pai, faz-me gozar a viagem e lembrar-me dele mais uma vez.
Segundo: A paisagem viva, cheia de cores e cheiros e brisas…
E por fim o formigueiro na barriga por saber que no horizonte já se vêem novas margens, outra cultura, outras desconhecidas belezas.


Sendo o General desta companhia, permito-me.

Como são belas as Tuas paragens e incrível este Teu mundo, cheio de diferenças, formas de felicidade…
A felicidade busca-se? São apenas momentos ou um estado de vida? Tenho visto muitos rostos felizes, muitos sorrisos verdadeiros e muita paz. As famílias que vivem nas margens do Mekong transmitiram-me sentimentos bons, vida, alegria na subsistência e muito engenho. É tudo construído por eles próprios e isso deve trazer um enorme sentido à vida. Preenche o dia, a alma e não deixa parar o ritmo que o rio impõe.
Quantas pessoas sofrem a frustração de não terem construído nada por suas mãos?
De nada terem inventado, manuseado, construído, ensinado, vivido? Quantas nem sequer sonharam…?
Quantas tiveram a coragem de se lançar ao rio para arranjar o barco preso nos juncos? Aqui, sente-se um dar a vida pela Vida. E tudo isto num passeio de barco!
Quero conseguir olhar para outras vidas com os olhos de quem se afasta das convenções de felicidade. De quem procura, simplesmente, louvar verdadeiras histórias de como ser Humano. Somos todos tão diferentes e continuam a haver condições fixas e formulários que nos farão felizes.
O que é que nos faz feliz? E como é que se parece a felicidade? Parece-se com as nossas avós? Ou com crianças? Parece-se com um banho á tardinha, no Guincho? Ou com as historias do cinema de segunda? Terá sabor, cor? Ou muitas vezes está lá e não damos por ela? Será simplesmente respirar? Será que quanto mais nos consideramos felizes, mais nos tornamos? O contrário sei que sim…
A felicidade pede-se? Dá-se?
Não deve ser suposto saberem-se as respostas mas creio que nunca mais esquecerei as famílias nas margens no Mekong!


Um casebre sobre estacas, uma placa vistosa e policias a rigor. Passamos a fronteira nas margens do rio por uma cancela de bambu e embarcamos em direcção ao destino final... feliz!



sexta-feira, 11 de Maio de 2007

GOOD MOOOORRRNIG VIETNAMM!!
















O dia no Vietname nasceu e o meu chitamento foi inevitável.
As pequenas janelas do Cathay Pacific sentiram o meu violento limpar o embaciado que se metia entre mim e a maravilha verde e rio.
Saigão para depois e uma daquelas noitadas num comboio colado ao tecto, fizeram a chegada a Nha Trang despreocupada e sem grandes correrias á guest mais barata. De malão em punho, (a palavra é), “abancámos” numa tenda no meio da rua, com mesas e cadeiras xxs, onde nos apresentaram um café muito doce com gelo. Detestei mas adorei a companhia e o meu arranhar das palavrinhas do capitulo Language do guia famoso. Ficámos todos muito amigos e lá fui a procura das Contacto Portuguesas em Xangai que estavam de ferias uma semaninha.
Nha Trang parece o desabrochar de Quarteira. Realmente a paria é linda mas o medo de me transformar em estátua de sal não me deixou olhar para os feiosos edifícios que se insinuam mesmo a beirinha.
Foram dias de praia que deliciam qualquer rapariga que se preze. Palhota privada, cadeiras com colchão, manicure a disposição e uma panóplia de marisco, ainda vivo, a deleitar-se na gralha, mesmo á beira-mar.
Cansámo-nos... Apanhámos uma carrinha em direcção a Mui que demorou mais três horas do que o previsto e muitas cantigas do antigamente.
E não é que estou num resort? Pergunto eu á tipa que está na janela, muito queimadinha, com mais quatro quilos em cima que por acaso sou eu.
É verdade! As meninas de Xangai tratam-se bem mas para quem só tem uma semana é mais do que merecido. Já eu e a Rita, como backpackers que somos, infiltrámo-nos numa caminha extra que agradecemos eternamente ás sponsers mais giras de Xangai. Foi viver na ilha do Thomas Crown (mas sem affair) e passear nas praias de areia branca, cercadas de palmeiras, onde qualquer fotografia sai favorecida. Fartei-me de pedir ao mar para não entrar dentro da piscina mas ele insistia...Os cocos tinham sabor a doce, os passeios de bicicleta ao fim da tarde, sabor a mar. Lindas de morrer, lá íamos nós para mais uma sessão de bronzeado perfeito e umas saladinhas variadas. Foram dias para o descanso que o corpo pedia, para voltar a arrumar a mala convenientemente e sobre tudo, para perceber o bem que faz ser se bem tratado, seja onde for.





Saigão

Motas são a paisagem de Saigão. São milhares, grandes, podres, pequenas, esguias, em sentido contrário, nos passeios, com 3 e 4 passageiros, nos parques, sem capacete, sem parar...
É a verdadeira anarquia no comunismo e na estrada tudo é permitido menos atravessar. Numa das muitas boleias que apanhei, vinham comentários orgulhosos da frente – “sem este trânsito os vietnamitas não são felizes”, “o medo é de quem pára” e outras frases de guerra com o mesmo sentido patriótico e destemido. As bandeiras do país e símbolos da ideologia colorem as ruas principais e por momentos sinto o peso da imposição, a carga duma pressão superior. Mas o povo vive na rua e tudo se passa em mesinhas de plástico á porta de casa, com muito comes e bebes até as tantas da manhã. Os vendedores ambulantes são quase tantos como as motas e igualmente intrusivos. Vendem de tudo e estão preparados com violentos néons para que a noite não estrague o negócio.
Exibem os melhores sorrisos, e por vezes é difícil discernir a verdade. Estão ali para o turista ver e para vender.
Passeámos pelas verdes ruas, assistimos ás violentas chuvas que duram o segundo de uma montra e visitámos o museu do presidente How Chi Min. Esse que ainda hoje é digno de altares pela cidade, foi o líder da ocupação do Vietname Sul. Liderava o Norte e morreu antes da vitória mas não deixou de ficar para sempre na história da guerra da América (como lhe chamam aqui) e de substituir o nome á cidade.
A cidade inspirou-me. Não sei se pelo pouco que corri, se pela correria que vi! Fui espectadora duma daquelas peças de teatro que chegam ao fim sem que tenhamos dado conta do princípio. Tudo vai, tudo vem, tudo circula, não pára. Há crianças que brincam, que vendem, empregados mostram serviço. Há palmeiras nos canteiros, Internet em todo o lado, jaz do bom num bar que vibra.
Saí cansada e com vontade de ter tempo para saborear aragens.


O Cambodja vem pelo rio e mal posso esperar pelas surpresas que as águas trazem…



segunda-feira, 7 de Maio de 2007

Cidade China


Se há cidade que faz lembrar a China, essa é Pequim. Cortem os arranha-céus a metade, alarguem avenidas, estreitem os Hutongs e não se admirem se encontrarem, a cada esquina, templos inacreditáveis, cheios de cor, em jardins com centenas de hectares, plantados no coração da cidade. É verdade, o número de pagodes não contei mas são muitos e todos diferentes. Para alem disso tudo, não se esqueçam que a cidade é real. Vi-me em variados filmes a cada virar de esquina e senti-me em épocas que não foram minhas. Não podia imaginar o que seria passar pela cidade que proibiram, cenário de tantas histórias que ouvi, contadas pela tia Alda e as suas brincadeiras principescas com a filha do imperador nesses fantásticos pátios e recantos. O último imperador foi sem duvida aquele onde eu era o realizador. E no meu filme, já me começava a incomodar tanta permissão nas entradas...
O Lugar é fantástico e faz pensar nesse homem. Ainda amado e odiado, extraordinário ser humano que acabou por não usar a sua própria humanidade. Tempos que fizeram a china de hoje e que contribuíram, sem duvida, para formar este povo tão trabalhador e desprendido, tão numeroso mas solitário...
Daqui a uns anos renova-se a lei: 2 filhos por casal e um futuro que todos desconfiam mas que ninguém quer saber.. Esta nação é provavelmente o futuro dominador do planeta e isso vê-se a cada cruzar ombro.
Um povo que funciona como massa, que se constrói, que se educa e que não precisa de ninguém, nem mesmo do Inglês. Acho bem mais inteligente a nossa corrida as aulas de chinês...



A Grande Muralha não tem explicação possível que se considere aceitável. Encontramos um português a passear-se pelas ruas que nos aconselhou uma expedição que se revelou uma verdadeira aventura.

10km de caminhada pela zona de muralha não reconstruída. Tijolos dos guerreiros Ming, muitas zonas sem tijolos e um a paisagem vertiginosa.
A recente abertura ao público desta parte da muralha ainda não deixou nascer as raízes do comércio e provavelmente não será o destino das excursões de americanos e japoneses da terceira idade. Resultado: muitas zonas do percurso feitas sem vestígios do homem de hoje. Completamente sozinha!
Rui, aqui vai um grande obrigada...

Não perdemos o fabuloso por do sol no palácio de verão nem umas voltas de bicicleta pelos atarefados Hutongs onde arranjamos pretexto para grandes corridas com os ricchós pelas estreitas ruas de roupa ao sol e banquinhas de variados sabores..
Pequim é uma daquelas capitais que não se pode perder, se se quer conhecer o país. Uma cidade heterogenia com uma carga cultural fortíssima e de onde cresce toda a China.


Agradeço a FanShan e a sua família por nos terem recebido na sua tão chinesa e acolhedora casa.

sexta-feira, 27 de Abril de 2007

O turista..


quinta-feira, 26 de Abril de 2007

Xangai




Viajar pode conduzir á frustração dos descobridores, que na sua incapacidade, perdem a noção de como é impossível assimilar todos os momentos, reter todos os achados, lembrar todas as praias...


È a ganância do saber, do ver, do estar que por vezes impede que se vivam os momentos e se dê valor ao que o tem. Com as obrigações turísticas em constante pressão perdem-se tardes de leitura num jardim por onde ninguém passa, conversas intermináveis num Starbucks, cadernos cheios de coisas escritas para não se sabe quando. Xangai foi merecedora de tais reflexões e cenário para o descanso dos justos. Uma semana vivida sem mapa nem tempo onde o acaso revelou o esplendor e encanto desta cidade que surpreende. Uma das mais evoluídas cidades desta China empilhada em fantástica arquitectura moderna e polida, Xangai é de contrastes… Os arranha-céus orientadores, são para se apreciar de dia e de noite estando no palco da arte urbana tanto nas formas como nas iluminações. Mas eis que surgem telhados revirados e dragões em relevo pintados. Sem saber dou por mim num bairro tipicamente chinês emoldurado por prédios espelhados que realçam os dourados e fazem crer num bairro bastante maior. Templos mostram, finalmente, a China dos filmes e dos Budas. Os mercados de animais de estimação exibem gafanhotos e grilos lutadores, tartarugas, peixes e uma barulhenta e variada criação de passario. Barraquinhas onde se pode comer de tudo, chinocas de pijama a meio da tarde e roupa, muita roupa pendurada. Roupa; essa que não se pendura nos arranha-céus, necessitando cada casa do seu próprio secador eléctrico… Pelos jardins, sempre impecáveis, vêm-se cenas que mereceram muitos dos filmes que fiz como o Tai-Chi com leques e espadas, as danças de salão e os ensaios de canto coral da terceira idade. E lá estão elas, as grandiosas entradas em mármore, muitos condomínios fechados e espaços abertos para almoçar. Será que os expatriados são tão bem tratados na nossa querida Europa? Os bons restaurantes, hotéis e discotecas estão cheios e não é de chineses...talvez seja a “cultura” deles… Talvez não precise de ser tão dura. As realidades são para se observar, estudar e aplicar construtivamente, na nossa própria realidade, e apenas nessa… Adorei o mercado das antiguidades. Objectos antigos e, como não podia deixar de ser, a imitar o antigo, são vendidos depois de acesas discussões e voos furiosos da calculadora. Saímos de lá com um conjunto de guardanapos e uns pauzinhos da sorte com explicações num inglês que não existe. São estes bairros, o que resta duma China que vai desaparecendo aos poucos e que deixa a saudade estranha do que não vivi… Xangai é uma cidade fascinante. Pelos seus contrastes, pela vida, pela noite e por toda uma oferta cultural que engrandece os curiosos. Obrigado aos contactos. Portugueses que vivem a cidade no seu todo e que nem sempre é fácil acompanhar...ou não...

quarta-feira, 25 de Abril de 2007

Hoje...

Inspiração não me sobra, não me tem dado para escrever...
Deixo espaço àquele a que a vida lhe foi pouca para tanta inspiração. Obrigada Maria, por me ter apresentado esse ser que Deus pôs no mundo, que põe Deus no mundo!
Pelo menos no nosso...




Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores
A incompáravel paciência de procurar o alto
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros.


Daniel Faria

segunda-feira, 23 de Abril de 2007

Xangai by night

Dar notícias nesta terra não é tarefa fácil.
A Internet não abunda e o jeitinho para dizer ciber café em chinês também não...
O post sobre os dias em Xangai ainda está a ser cozinhado mas posso adiantar que a noite tem bastante a dizer...
Uma das mais famosas noites do mundo, Xangai é para ser vivida com muito café e pepinos nos olhos..
Todos os dias da semana têm diferentes itinerários e ladies night correspondentes mas o mais difícil é estar excelentemente bem integrada no grupo de tugas do contacto que não dão tréguas a ninguém...
Bares com design do mais fashion que há, discotecas com varandas brutais nos últimos andares de arranha-céus, a maior comunidade de expatriados do mundo e chinocas a dar cartas nas danças de salão..Uma maravilha
A mansão do Kelly, António e João foi abrigo, pátria e hotel de 5 estrelas..
No primeiro dia fomos debutar para cinco das muitas festas que se passavam nessa sexta e não faltaram jantaradas em casa de quase todos.
Eles são 15, trataram-nos lindamente e não podiam ter sido melhor companhia nesta cidade.
O fantástico casal de cônsules Portugueses recebeu-nos igualmente em sua casa nos últimos dois dias (que afinal foram quatro pois perdemos o comboio para Pequim)e fizeram-nos, mais uma vez durante esta viagem, sentirmo-nos um bocadinho em casa...

O sol também nasce em Xangai mas hoje, parece que não...

sábado, 14 de Abril de 2007

Maravilha do homem plantada na maravilha de Deus.

Com cem anos de existência, Hong Kong é uma cidade que parece ter sido construída de uma só vez e onde tudo está pensado para funcionar.
Os arranha-céus, arrogantes a exibirem as suas fabulosas formas, disputam entre si quem é o mais original. São verdadeiras obras-primas da arquitectura contemporânea, monumentos que celebram o desenvolvimento e a vontade de crescer deste país, tudo em grande escala. Parecem cogumelos metálicos a nascer na imensidão do verde daquelas ilhas. Paisagem antinatural mas fabulosa…

Tudo é organizado, tudo está sinalizado, tudo está limpo e bem arranjado.
Passadeiras aéreas para piões atravessam os edifícios e percorrem toda a cidade que se movimenta em dois andares. Autocarros, eléctricos, restaurantes, lojas, tudo tem dois andares o que transmite a muita actividade da cidade. Lojas e restaurantes do mais top que há e a qualidade de vida aparente é sem duvida uma forte explicação para a quantidade de estrangeiros que ali vivem.


Fomos viver a cidade! Primeiro os pontos mais turísticos como o pico, os edifícios mais conhecidos e a zona da noite e dos bares.
Depois as praias e baías da zona mais periférica e por fim a ilha de Kaw Loon onde subimos ao penthouse do hotel Península e contemplamos o magnifico espectáculo de luzes lasers e efeitos psicadélicos dos arranha-céus de HK. Isto, sentadas no bar do Philip Stark, a beber um cocktail de laranja e ginja.


Voltamos para casa de barco e com os olhos cheios de cores, muitas cores. Céu e mar em sintonia perfeita foram espelho e efeito de tamanho espectáculo.

Uma cidade extraordinária, cheia de vida, cheia de stress, talvez cheia de mais e de muita coisa mas para mim, uma experiência em cheio.

Próxima paragem Shangai.


domingo, 8 de Abril de 2007

Macau Aleluia!!

Estou eu a navegar no meio de ilhas, muitas ilhas, verdes, como cogumelos. Quando se junta o mar e a montanha não consigo deixar de suspirar em profunda admiração pela natureza no seu estado mais seu. É daquelas paisagens que me fascinam.
Claro está, o sorriso deslumbrado depara-se com complexos organizadíssimos de arranha-céus imponentes e logo se transforma em cara de parva “como boi para palácio”. Hong Kong, vista do ferry, é a cidade tirada de um bom filme que se fez sobre o futuro. Com os seus 100 anos de existência, cresce a partir do que já é contemporâneo tratando-se de uma das mais cosmopolitas cidades do mundo.
Mas Hong Kong “são outros 500”, sigo directamente para Macau ainda abananada com a quantidade de informação a digerir.
Chegar a Macau, vinda da Índia, é um daqueles choques térmicos agressivos que fazem doer as cruzes.
Ainda há pouco estava eu na maior democracia do mundo, que por o ser, não consegue esconder a pobreza profunda de raiz eterna, apresentar uma arquitectura harmoniosa, manter iluminadas as noites citadinas. E agora estou eu na china comunista dos casinos privados...
Macau está, assustadoramente, apinhada de casinos e luzes que invertem o conceito de noite e dia.
A cercar os mais de 30 estabelecimentos de jogo amontoam-se furiosas casas de penhores que exibem verdadeiros contadores histórias de família… Na sua maioria, colares de budas e relógios. Não há procura para tanto casino, pensei eu, mas a verdade é que sejam dez da noite ou da manha as portas estão abertas e com razão.
Mas nem a Índia é só isso nem Macau se resume á sua principal actividade.
Cidade muito marcada pela presença lusa, Macau é, para qualquer Português, um oásis no oriente. As ruas e letreiros comerciais escritos na língua de Camões e os cafés e restaurantes, 100% Tuga, enchem o olho aqui da Carmo. Todos os dias bebemos um expresso dos verdadeiros com pastel de nata a acompanhar (já não tão verdadeiro mas com boa intenção).
A cidade é muito pequena e tudo se faz a pé. De casa ao centro é um pulinho. A zona do Leal senado faz lembrar Braga e as suas ruas, de casas típicas, pejadas de comércio moderno, em três minutos esbarramos com os “monumentos do azar”, mais outros três e estamos no fim da ilha, no templo de A-Má, a contemplar a fabulosa vista de Taipa. A vista ficou para os postais porque o tempo está do contra.














Não perdemos o farol da Guia com as maravilhosas sessões fotográficas á chinesa nem a famosa rua da Felicidade, tipicamente chinesa, onde outrora se praticava a mais antiga profissão de sempre (daí o nome da rua).
Estamos lindamente instaladas na maison do João Pedro que foi de ferias e nos abriu portas com uma enorme disponibilidade e simpatia. Já nos apetecia ter um cantinho onde coubesse uma chave…
Assim podendo, tem sido uma semana de extravagâncias: lavamos roupa, temos Internet em casa e missa em português. Os portugueses não são muitos mas os que temos encontrado, a maravilha da hospitalidade. O João e o Ismael sempre disponíveis. A Mariana, cicerone e uma verdadeira companheira de experiência além fronteiras, a Margarida, o Pedro e o querido Simão, com quem passamos a Páscoa foram uma lufada de ar fresco e uma companhia extraordinária. Para ser franca, não tinha programado onde iria passar a Páscoa e Deus não podia tê-la organizado melhor: Semana Santa no único lugar do oriente onde as cerimonias são em Português e com direito a ceia em família.
Parto mais uma vez mais cheia de esperança no que esta para vir mas desta vez na companhia de Jesus, finalmente, Ressuscitado…
Obrigada a todos.

Aleluia!!

quarta-feira, 4 de Abril de 2007

Só mais umas...

















































































































































































Proxima paragem... Macau

domingo, 1 de Abril de 2007

Aviso

A pedido de varias familias dediquei-me a perceber o porque de a maioria das pessoas nao conseguir enviar comments. Problema tecnico reolvido.
Pedimos desculpas pelo incomodo e mais obrigados por quererem comentar o meu blog.
Sem mais assunto.

O General

segunda-feira, 26 de Março de 2007

Adeus India

Tenho tido alguma dificuldade em escrever assiduamente. Descrever lugares e pessoas pode trazer a vulgaridade dos postais... Aqui, tudo passa a correr, numa velocidade incrivelmente superior 'a dos meus dedos. Que suga toda a vontade de ser precisa, de ter ordem e coornologia.
Dou por mim a querer escrever notas diárias num bloco para não esquecer o que vou dizer no blog. Notas essas, que nunca sei onde estão quando preciso. Talvez porque não precise delas, a viagem de 10 horas de camioneta "cama" que fiz para Agra esta ainda bem fresca na memoria...
A viajem pelo rajastão acabou e este post vai ser uma descrição livre. o que me chega a memoria com mais insistência.


Chegamos a Pushkar com o estômago colado as costas. Mal pomos na "paragem", que mais parecia um ultimo recurso no faroeste e umas cabras, procuramos logo a guest house recomendada em Agra e instalámo-nos no telhado a beber qualquer coisa.'E de referir este pormenor das guest house. Isto aqui e uma máfia, todos se conhecem, primos em todo o lado e as guest house estão irremediavelmente viciadas. Se entramos no circulo x nunca mais de la saímos.

Pushka é o paraíso das compras e santuário de Brama, um dos principais deuses hindus. Tem um lago onde mergulham templos e rituais.

Uma rua que contorna todo o lago, pejada de lojas e pregoes faz-nos voltar'a realidade indiana que tinha esquecido ao contemplaro belo cenário a beira lago...

Mais cinco horas de caminho, o autocarro pára. O alarido não é muito, traduz a normalidade com que se encaram mais três horas de viajem do que o previsto. Saio disparada...
Estamos a espera que passe o comboio, diz um dos entendidos. O pior 'e que o comboio esta a espera que se faca a linha.. O QUE? Não acredito durante os primeiros cinco minutos mas a simpatia do condutor e dos que se julgam condutores conforta-me o espírito e a paciência. O Figo continua a marcar golos por estas bandas e o Vasco da Gama chega, por barco, a Goa, o que nem sempre acontece em Portugal...
Comemos e bebemos e la chegamos a Johdpur, cidade azul, ou não... o elefante que vi passar, sinal de festa na cidade, não me deixa esquecer onde estou: nesta Índiao diferente da que vi nascer.

Na guest house conhecemos mais uns. Queremos fazer um safari!! Os "mais uns" juntam-se a festa e la vamos n'os para Jaisalmer. Cidade dourada, esquecida no meio do deserto, onde param turistas, poucos, para os famosos safaris.
Que maravilha de espedição.. Eu a Rita, dois Ingleses, duas Holandesas e um Dinamarquês. O guia, um daqueles chicos espertos, 30 anos, que diz estar aqui para servir mas que nos faz seus súbditos todo o safari, a namorada do guia..... Uma Suiçaa com 60, completamente alcoólica, drogada, esgroviada, que vive na India porque a mesada que a mãe lhe da não chega para viver na Suiça.
O resto dos súbditos do chico esperto, esses sim, um espetáculo.















Prcorremos varios tipos de deserto, uns mais desertos que outros, vimos paisagens lindas. Conheci o calor dos filmes e mais valor dou a este povo do campo que nao conhece mais nada, nem os filmes... Vi o sol por-se modesto so para que o ceu estrelado nos desse uma noite como nao ha.
Na manha seguinte partimos para mais uma corrida e ao principio da tarde apareceu um jeep ao qual fizemos uma calorosa recepcao. Andar de camelo nao e facil mas comer chapati com vegetais de manha 'a noite 'e bastante pior..


O Rajastao e uma zona rural, muito pobre, que nao vai 'a cidade. Sao pessoas simples, que invadem por nao conhecerem e que se dao com o melhor que tem. As viagens de camioneta e comboio que fiz, a ultima de 20 horas, foram incrivelmente bem passadas. Cheias de historias e risos. Cheias de laranjas e bolachas a passarem de mao em mao e um adeus 'a janela a cada paragem.
Um adeus que digo agora a esta India que AMEI!! Tao heterogenia, tao diferente, com tanto para ver, com um regresso certamente...

domingo, 25 de Março de 2007

Agra

Agra não tem muito para ver...


Baby Taj Mahal - Monumento que o Rei construiu para representar toda a beleza e encanto da sua formosa esposa mas que esta não achou suficiente...















Taj Mahal
- Agora sim!! Mas que rainha deslumbrante...


















Forte Vermelho












Gostei..

quinta-feira, 22 de Março de 2007

Estou de partida.
Estranho, como são as relações que determ
inam a noção de tempo... A mim pareceu-me um ano! Porque me senti realmente em casa, porque fiz amigos, porque tinha o café onde pedia "o do costume", porque já sinto saudade...
Já vou. Arrumo as malas com a pressa de quem não sabe para onde vai. Ainda tenho um dia de trabalho em Kaligat onde, finalmente, poderei tirar uma ou outra fotografia de quem me foi mais querido.

Trabalho com o mesmo empenho dos outros dias mas olhando pela ultima vez para cada uma daquelas inesquecíveis senhoras. Tão naturalmente como cheguei, vou. É assim o verdadeiro correr da vida. Tudo passa, tudo é efémero. (Quase) nada se pode Ter, e o que se pode é nos dado, pois são memórias. É com essa simpática dádiva que parto, mais alegre que nunca. Uma alegria de outra cor, cor que nunca tivera antes. Tudo isto porque me sinto verdadeiramente privilegiada e agradecida pela oportunidade que tive em poder esta aqui, trabalhar para e com estas pessoas, ver o amor em acção. Calcutá revelou-se para mim lugar santo... À ida para o aeroporto consigo, pela primeira vez, ir num táxi sem ter de me ferrar de unhas e dentes aos bancos e manípulos, sem ter todos os músculos em tensão "acçónica". Vou descontraída, sinal de adaptação, respirando o ar da confiança no que esta para vir. Confiança da presença de Deus neste seguir caminho, na minha vida.

Calcutá fica para traz mas trago comigo mais do que fica...


Obrigada!




DELHI


Cheguei a Deli às 9 da noite e foi-me fácil chegar à Rita (companheira, prima, amiga).
Pensão de alto nível com varandinha para pe
queno almoço e tudo. Com o costume de acordar cedo, levanto-me às 6.30 depois de suficientes voltas na cama. Um nascer do sol traz um lindo novo dia, persságio (talvez) de lindas novas paragens.
A cidade impressionou-me. A minha índia não é assim!! Ag
ora percebo a verdadeira condição de Calcutá... Com a desculpa de ser a capital, Deli é uma cidade que se pode chamar "evoluída". Tem placas a indicar destinos e sinais de trânsito. Tem publicidade luminosa e grandes viadutos. Os ricchós não são a pé. Ou bicla ou moto. As ruas são mais limpas, não se vê tantos pedintes e nem se ouvem tantas buzinas. Há lojas e restaurantes muito ocidentalizados. As pessoas são simpáticas e pouco mais posso dizer da cidade que vi partir do comboio das 6 da tarde de hoje, em direcção a Agra.

São 11 e ainda aqui estou, com um atraso de 3 horas. Podia ser pior...

domingo, 18 de Março de 2007



































quinta-feira, 15 de Março de 2007

Dia de folga



Esta manha ( dia de descanso para os voluntários) fui a casa mãe saber qual era o programa das festas para o dia.
-Visita 'a leprosaria - disse uma das irmãs com pouca paciência e muita pressa.
Eu parei para reflectir em tal programa. O que ser'a uma visita a uma leprosaria?? Não podemos trabalhar, ver! As primeiras imagens que me surgiram foram: um grande hospital, sujo, a cheirar mal, cheio de leprosos a cair aos bocados e eu a passear de maquina em punho com uma data de japoneses aos gritinhos.. Tirei rapidamente essa ideia da cabeça pois trata-se de uma casa das irmãs da caridade e, sabendo eu o seu modo de tratar todos aqueles que estão sob sua alçada, dando atenção primeira 'a dignidade humana, não me pareceu querente tal conclusão... Resolvi inscrever-me.
Ainda na casa mãe, um role de recomendações a cerca da viagem de comboio que íamos fazer. Cuidado com as carteiras, cuidado com as multidões, cuidado ao entrar no comboio, cuidado ao sair do comboio, cuidado com crianças! O principal aviso: Expressamente proibido tirar fotografias na leprosaria assim como em todo o trajecto ate la. As estações são do estado e ele não quer que se conheçam as suas entranhas... pelo menos fotográficamente!! Pode haver um maluco qualquer que queira por uma bomba e assim fica a saber como o fazer. , se optar por visitar pessoalmente o local, não me parece que haja qualquer tipo de inconveniente. Aconselho a segunda hipótese.
Andar de comboio é fantástico! Envolta em densas verdes tropicais, a linha de águas paradas quase se confunde com as miragens do deserto que se dão com o calor, e logo, o fresco do vento que nos devolve o bem estar da manha. Aglomerados de casinhas de palha, organizadas a beira rio, fazem lembrar as historias que se ouvem sobre as aldeias índias na floresta amazónica. O compasso repetido dos carris, que nos leva a entrar num estado meio adormecido meio meditativo, quase nos tira o resto das forcas que o calor não conseguiu.
Chegámos mas eu não queria...

Esta casa começou em 1958 pela Madre Teresa que dirigiu o seu trabalho 'a grande comunidade de leprosos existentes em Calcutá. Pessoas completamente rejeitadas pela sociedade sem forma alguma de arranjarem trabalho, educação, dignidade. Enchiam as ruas de Calcutá pedindo esmola, tornando-se muitos deles, bêbados e drogados.
Com insistência, as irmãs conseguiram que o estado lhes cedesse terra suficiente para iniciar o centro e a partir dai começou uma das comunidades mais mais bem sucedidas que vi. Todas as pessoas que vivem nesta "aldeia" são leprosos. Uns estão muito doentes, outros estão estabilizados sendo estes últimos os responsáveis pelo tratamento dos primeiros. Quem esta completamente curado trabalha e recebe salário para comprar a sua comida, pagar a casa e sustentar a sua família. Os alimentos são produzidos e vendidos dentro da quinta. As crianças ficam numa cresce apoiada por algumas das mulheres e recebem as primeiras aulas. O trabalho é também ele, garantido na quinta. Teares, onde fazem os famosos saris azuis e brancos usados pelas irmãs em todo o mundo, uma horta, um estábulo com diferentes animais, a manutenção das casas e dos jardins. Quem falta ao trabalho perde o emprego assim como quem não respeita as regras. Tudo funciona como um ciclo organizado onde cada um tem o seu papel, onde ninguém é diferente, onde todos tem lugar. As casas e jardins são muito simples mas de uma beleza comovente. Tudo esta arranjado e limpo. Ninguém parece incomodado com a nossa presença, antes pelo contrario. Olhares sorridentes cumprimentam-nos, pedem-nos para entrar, motram-nos orgulhosamente as suas vidas...
Que exemplo de dignificação do ser humano. De busca desenfreada pela felicidade, onde quer que ela possa estar.
Agradecimentos a uma tal irmã que ia com pouca paciência e muita pressa...

terça-feira, 13 de Março de 2007

Nunca, como hoje...

... uma brisa me foi agua.

segunda-feira, 12 de Março de 2007

Que saudades de fado...

quarta-feira, 7 de Março de 2007

Kaligat

Demorei todo este tempo a conseguir interiorizar, por pouco que seja, o trabalho que comecei á duas semanas...
Kaligat é maravilhoso!Um lugar vigiado por Deus dia e noite. Vida e morte, lado a lado, sem constrangimentos nem vencidos.
Trata-se de uma casa onde as Irmãs da Caridade (Calcutá) recebem moribundos, na sua maioria velhinhos, que provavelmente não viverão muito mais tempo.
São pessoas muito pobres. Vivem a solidão de uma estação de comboio, doentes de corpo e alma.
Chegam assustados, sem esperança. Garantias? Apenas uma: O amor.
Cada manha é vivida com muita eficiência. Primeiro o pequeno-almoço e a higiene. Curam-se feridas e destinam-se diferentes xaropes, analgésicos e vitaminas.
Um grupo de voluntários esta no telhado a lavar e secar roupa enquanto que cá em baixo, começa o exercício físico. A mim, destinaram Comala, uma senhora com os seus 60 anos e cheia de vida para a arte da preguiça. Não gosta de se mexer e para afastar voluntários e freiras utiliza-se do seu mais apurado mau feitio. Voam insultos em hindu e bengali, gritos e algumas pancadinhas mas acabo por conseguir leva-la para o "ginásio". Falamos cada uma no seu inglês e somos j'a grandes amigas...
A cama 10 é animada pela happy birthday, uma simpática ceguinha que faz anos a 25 de Dezembro e que se delicia a cantar os parabéns. Todos os dias cantamos juntas e chovem palmas para a aniversariante.
Puskar. A historia de Puskar não é feliz mas a sua forca e vontade de viver fazem-nos esquecer que o tem o corpo todo queimado porque casou com um ciumento. Esperava um filho de sete meses e estava casada a oito.
Recupera rapidamente e tem todos os meios para isso. Sorri a maior parte do dia e nunca se queixa... Um exemplo que me impressionou principalmente pela vida que se sente vir de dentro daquele corpo deformado de 23 anos. 'E linda e vai ser muito feliz...
Cada uma tem o seu encanto, a sua particularidade. Há a que se ri por tudo e por nada, a que canta desalmadamente, a que grita porque quer comer (mesmo com dois pratos de galinha masála à frente), há a gorda, a magra, a chata. A que se veste como uma princesa...
Os dias passam, a cumplicidade aumenta e torna-se cada vez mais fácil trabalhar. Torna-se imprescindível trabalhar.
As regras da casa, vão-se conhecendo aos poucos. A primeira que descobri: Não atrapalhar. Apesar de não aparente, existe um sistema bastante organizado onde todos sabem como e o que fazer. Há que abrir os olhos e observar, estar atento e não desanimar.
Já cometi alguns erros e levei muitas desandas e isso fez-me pensar mais a fundo no que é isto de ser voluntário! Dar o nosso tempo e disponibilidade não chega, trabalhar com o que sabemos é pouco. Há que fazer aquilo que nos pedem, há que fazê-lo bem feito...


Ao fim da manha um tchai para restabelecer energias e trocar experiências.



O que sinto não partilho! Não dou! Não posso...

sábado, 3 de Março de 2007

Happy Holi

The colorful festival of Holi is celebrated on Phalgun Purnima which comes in February end or early March. Holi festival has an ancient origin and celebrates the triumph of 'good' over 'bad'. The colorful festival bridges the social gap and renew sweet relationships. On this day, people hug and wish each other 'Happy Holi'.Holi is one of the major festival of India and is the most vibrant of all. The joys of Holi knows no bound. The festival is celebrated across the four corners of India or rather across the globe. The festival is filled with so much fun and frolic that the very mention of the word 'Holi' draws smile and enthusiasm amongst the people. Holi also celebrates the arrival of Spring, a season of joy and hope...

The Holi Festival, o maior festival de toda a India.... A festa em que os hindus celebram o triunfo do bem sobre o mal e desejam a paz a todos. Isto é tudo muito bonito e tal... a paz... Mas o que aquilo é, é uma autentica batalha campal!!

As pessoas ficam descontroladas, trazem bazucas de tinta de todas as cores e só se dão por satisfeitos quando o "próximo" estiver a zenir como um pinto acabado de nascer... As irmãs aconselharam todas as voluntárias a ficar em casa porque, dizem elas, "there are some very dangerous people..."
Quase todos acabaram por aparecer, mas nas ruas mais conhecidas de todos.

Eu levei logo uma banhada dentro do táxi a caminho do trabalho (neste dia não háautocarros). Nas ruas foi o fim... Não tenho muitas fotos da batalha porque quis salvar a minha maquina, mas uns amigos ficaram de me mandar e depois mostro tudo.

Foi tal o aparato que eu fui entrevistada para a televisão e tiraram-nos uma data de fotos para o jornal. lol Já somos famosas... A festa pára às 4 da tarde, para que a cidade possa abrir portas, mas recomeça na manha seguinte com muita cor, álcool e animação!!
Para nós a festa será mais soft porque amanha é dia de trabalho, mas asseguro-vos que vale a pena vir assistir a esta maravilha de festival.
A ultima novidade: A Rita começou hoje a trabalhar numa das casas e adorou.. Fizemos um bocadinho de tudo e soube-me muito bem trabalhar com ela. Tenho pena que ela não possa ficar mais tempo, mas vai para Deli trabalhar na sua tese de mestrado.

Por falar em trabalho, tenho de escrever sobre o que ando cá a fazer. No fundo, a principal razão que me fez vir a Calcutá e que me faz aqui, estar tão feliz.

quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007

De corpo e alma no trabalho...


terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

Tentar o impossivel!

Como é difícil esta benvinda tarefa de descrever um novo lugar. Como se tornam, os significados, tão distantes dos significantes...

Calcutá é uma cidade com 14.70 milhões de pessoas.Fica situada a oeste da Índia, muito próxima da fronteira com o Bangladeshe e é a capital e maior cidade do estado de Bengala Ocidental. A temperatura media anual ronda os 27ºC, mas no verão chega a atingir os 40ºC.
Neste momento estamos na estação seca antes do verão, ou seja, a melhor altura para visitar Calcutá (Janeiro/Fevereiro), temperaturas amenas, pouca humidade, poucos insectos... São de referir as monções, grandes chuvas que ocorrem entre os meses de Junho e Setembro, e que representam 80% da precipitação anual.
Cidade caracterizada, principalmente, pelos seus elevados índices de pobreza, poluição e congestão de tráfego.


Como podem imaginar, Kolkata é muito mais..
Muito mais do que o nosso, tão completo vocabulário, consegue pintar..
À chegada, a pequena experiência de táxi, pôs-me a par do que é isso de "problemas de congestão de tráfego". Eles são completamente loucos e não tem sensibilidade auditiva. As buzinas são o inferno de qualquer surdo e nos tempos de hoje, já não significam nenhuma sinalização de transito, não havendo critério para usar o "tal" instrumento...

Num primeiro contacto, as pessoas metem m
edo.. Não se percebem as expressões, os olhares. Mas com o tempo começamos a saber quem é quem e torna-se muito mais confortável andar pelas ruas. Já conheço um diâmetro considerável e isso tem-me ajudado a criar o meu espaço, onde me sinto a vontade e por onde ando sozinha, sem problema.

A cidade é um nojo!! Não me parece haver outro lugar do mundo que seja tão porco. A poluição. As tascas e tasquinhas, as vacas e vaquinhas, as cuspidelas (para não chamar outro nome mais caracterizador). As águas que não se sabe de onde vem nem para onde vão e que inundam os recantos e passeios. Os talhos ao ar livre que tem sempre de lado um monte de matéria orgânica indecifrável e uma média de quatro corvos por monte. Os corvos. Os urinóis. Um "túnel do marques" em cada esquina, tal como o próprio, interminável. As fumaradas. O cheiro... O CHEIRO! O sentido que nenhum vocabulário conseguiu aprisionar. Aquele que, sem passado nem futuro, não se pode reter, nem mesmo na memória. Não se pode dizer que a cidade cheire mal. A cidade Cheira! A tudo, a coisas, lugares, a terra molhada, a vida e a morte. Cheira a flores, as mais perfumadas. A lixo, o mais deteriorada. A incenso, perfumes e fritos. A fumo e suor. Cheira... É incrível e inexplicável...

Ia continuar, mas esta imagem não me deixa. Talvez volte a tentar o impossível mais tarde.



sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

Primeiras impressoes..

Primeiras impressões...

Viajar sozinho é uma experiência única e desconcertante.Primeiro vem o nervosismo e medo pelo desconhecido. Mas sem darmos conta estamos a receber as primeiras lições dessa linguagem que é a de todos: A Empatia! Sem saber, estamos dispostos para o outro de uma forma tão simples que acabamos por fazer e dizer coisas que nunca pensámos... Sem preconceitos, sem barreiras... E o melhor de tudo: Sendo nos próprios!Saí de Lisboa com o coração na boca e cheguei a Londres com o coração, o estomago, os pulmões...No avião para a Índia conheci logo um indiano que me deu informações importantes, visto estar completamente em branco em relação ao que fazer quando chegasse a Calcutá. Como trocar dinheiro sem ser enganada, como apanhar um táxi sem ser enganada, como comer qualquer coisa sem ser enganada... Esse tipo de coisas banais...Chegada a esta, que é a cidade onde tudo pode acontecer (segundo alguns voluntários), achei que morria no caminho para a casa das irmãs! Os carros, as motas, as biclas, os animais, as pessoas, AS VACAS, andam todas na mesma faixa sem qualquer tipo de código aparente.. Desviam-se a ultima da hora e foi aí que o resto dos órgãos me saiu, literalmente, pela boca!Cheguei a meio da missa onde a comunidade de irmãs e voluntários se reúnem todos os dias às seis da manha! Estava à noia!! Juntei-me ao pequeno almoço ai percebi o espírito da coisa. Todos os dias chegam voluntários de todo o mundo para trabalharem nas diferentes casas das irmãs. Por isso ninguém achou estranho eu estar ali sozinha, especada, a olhar... Meti conversa com dois japoneses e percebi que nesse dia haviam inscrições para as diferentes casas.Resumindo... Estou já a trabalhar na casa Kaligat, que trata doentes e velhinhos, tentando dar-lhes uma vida mais digna e algum conforto interior. Todos os voluntários se ajudam uns aos outros e já conheci pessoas de quase todos os paises aonde vou. O trabalho não e difícil antes pelo contrario. Como é real (apesar um clichê) a sensação de se estar a receber muito mais do que se da. É verdade e venham comprová-lo. Pode vir qualquer um a qualquer hora!Estou-me a sentir perfeitamente adaptada e pronta para passar um dos melhores meses da minha vida!!

Pontos a referir:

1 Estou na Índia, logo, a escrever de computadores indianos. Ou seja. Sem muitos acentos e algumas letras.

2 Se houverem erros não são indianos..são meus mm!!

3 Aqui também não há cozido...bolas!!

segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007

Onde é que para o cozido??

Primeira paragem: London
Cheguei a Londres onde vim visitar os meus queridos amigos (Vilaça, D'eça e Manel) .
Hospitaleiros como bons portugueses mas, cozido, nem vê-lo!!!
Havia porem um dos ingredientes fundamentais: Uma FARINHEIRA!!
Vou continuar por esse mundo fora em busca de um belo cozido à Portuguesa para me deliciar e fazer lembrar o meu querido Portugal..
Proxima paragem: Calcutá (India)